Fevereiro de 2018

Em tempos difíceis, uma oportunidade para buscar a Sabedoria

Que seja com entusiasmo e simplicidade, com a Bíblia aberta no Livro da Sabedoria, que iniciemos nossas reflexões ao longo deste ano.

Pra começo de conversa, é muito importante nos preocuparmos em procurar colocar o texto no contexto em que foi escrito. O momento vivido pelo autor, as situações problema da época, os desafios, a cultura dominante são fatores essenciais que nos ajudam a compreender e a atualizar a mensagem oferecida por ele. Com este olhar, vamos voltar no tempo, no período entre 50 a.C. e 50 d.C., e nos colocarmos como cidadãos judeus da Alexandria, lá no Egito.

O livro da Sabedoria, o último livro do Primeiro Testamento, foi também o último dos livros a ser escritos, provavelmente entre os anos 30 a.C. e o início da Era Cristã. Este foi um período extremamente turbulento. A Palestina e o Egito se encontram dominados pelo Império Romano, que atinge sua máxima expansão. O poder perpassa por variadas mãos. Em Roma, Otaviano em 29 a.C. torna-se imperador vitalício passando a ser conhecido como César Augusto (29 aC a 14 d.C.), sendo sucedido por Tibério (14 – 37d.C.), seguido por Calígula (37- 41 d.C.) que morre assassinado e, então, por Cláudio (41 – 54 d.C.).

Na Palestina, entre 39-37 a.C., após luta e disputa pelo poder, Herodes vence o rei e sumo sacerdote Antígono e torna-se rei da Palestina até 4 a.C., quando morre e esta é, então, dividida entre seus filhos.

O Egito, com o suicídio de Marco Antônio e Cleópatra em 31 a.C, passa a ser província romana. A cidade de Alexandria, um dos maiores centros culturais e comerciais da época, há, entre seus 500 ou 600 mil habitantes, cerca de 200 mil judeus, na maioria, pobres e escravos. Apesar do domínio romano, com relação à cultura impera soberanamente o poderio helenista. O que não impede que o Egito de agora faça reviver aos judeus o êxodo, a opressão e a idolatria. Agora são os romanos que fazem as vezes dos egípcios do passado, oprimindo e perseguindo.

É, portanto, um período conturbado tanto para os judeus da Palestina, quanto para aqueles da diáspora egípcia, em particular da Alexandria. Cresce a tensão entre estes judeus diante da dominação romana, visto que eles perderam seus direitos conquistados junto aos gregos. Por outro lado, esta perda de privilégios adquiridos leva muitos judeus a aderir à cultura helenista. E mais, muitos vão deixando de ser fiéis ao Deus dos judeus.

Deste modo, a cultura grega se constitui numa ameaça constante à fé e à identidade cultural do povo judaico. Era preciso reagir. Era necessário manter viva a própria identidade. É neste contexto que emerge o livro da Sabedoria. Ele foi escrito em grego, pertence aos chamados livros deuterocanônicos. Não se encontrando, portanto, nem na Bíblia Hebraica, nem no cânon das Igrejas da tradição evangélica (os luteranos, batistas, e outros).

Seu autor, apesar de desconhecido, certamente trata-se de um judeu nascido e criado na diáspora de Alexandria do Egito. Orgulhoso de sua tradição judaica, demonstra conhecê-la em profundidade. Mostra seu conhecimento sobre a história de Israel e a fé num Deus sempre pronto a ouvir o clamor desse seu povo. Por outro lado, como cidadão de Alexandria, mostra compreender e desfrutar do conhecimento grego, como a cultura filosófica grega, e em particular, de sua corrente estóica, percebendo-se em seu pensamento a sua influência.

Diante da ameaça da supremacia da cultura grega, bem como dos riscos de sua influência no pensamento de jovens judeus, o autor se propõe a dar conhecimento do Deus dos judeus aos helenistas, de modo a fazê-los ver a superioridade da Sabedoria israelita em relação à grega e reforçar a fé dos judeus alexandrinos.

Nestas circunstâncias, o autor destina o livro da Sabedoria aos governantes – para que ajam com justiça; aos sábios gregos – para conhecerem a sabedoria de Israel; e aos jovens judeus – para que se mantenham na fé e tradição do seu povo. Seu objetivo é:

  • falar aos judeus da necessidade de reforçar sua fé e ativar a sua esperança, relembrando a tradição histórico-religiosa de seus antepassados. Dando assim, consistência à sua identidade ameaçada pelo império greco-romano;
  • falar a todos da contribuição que a sabedoria conquistada por Israel ao longo de sua história pode lhes oferecer. Portanto, a Sabedoria, dom de Deus, conduz ao discernimento da justiça, o que pode levar à liberdade e vida para todos.

Sugestões:

  1. O livro do Deuteronômio fala-nos da Torah como fonte de conhecimento e sabedoria: “eis que vos ensinei estatutos e normas conforme meu Deus me ordenava, para que os coloqueis em prática, pois isto vos tornará sábios e inteligentes aos olhos dos povos”. (Dt 4,5-6a). Como você distingue conhecimento e sabedoria?
  2. “A sabedoria não entra numa alma maligna, ela não habita num corpo devedor ao pecado” (Sb 1,4). Reflita e comente.
  3. Por qual motivo se justificará ser comum na tradição popular associar a Sabedoria às pessoas mais idosas? Será a Sabedoria um privilégio dos idosos? Comente