DICAS BÍBLICAS

Agosto de 2017

O Trabalho que liberta

Estamos irmanados aos tessalonicenses, nos deixando conduzir pelo pensamento de Paulo que, entusiasmado, procura dar consciência à comunidade do quanto ela, deixando-se conduzir pelo Espírito (1,6), soube viver em plenitude a tríade fé-amor-esperança (1,3). O dom da fé com a adesão a Cristo morto e ressuscitado estimulou-os a praticar o amor fraterno. E foi com esse olhar que conversamos sobre o amor em nossas Dicas Bíblicas no mês passado, você se recorda? Foi quando refletimos sobre a convivência comunitária, o cuidado mútuo, o “estar com”, o servir sobretudo ao mais necessitado.

Falta-nos agora refletir sobre a esperança, mas não sem antes nos determos um pouco mais sobre os desdobramentos do amor fraterno. Com jeito de quem não tem pressa! Porque esse amor do qual falamos pode nos surpreender ainda mais à medida que nos adentramos ao pensamento paulino.

Assim como nossa fé foi estendida da fé de Abraão à fé em Cristo, o amor a Deus foi estendido ao amor ao próximo. Mas esse amor, que se expressa em sentimento e no conviver, pede uma ação concreta, uma ação provocativa, que nos conduz a um novo paradigma: uma nova concepção do trabalho.

Recordemos que estamos por voltas dos anos 50-60. Os gregos valorizavam apenas as atividades intelectuais, artísticas e políticas. O trabalho, essencialmente manual, era geralmente função de escravos, por isso desonroso para os homens livres. A sociedade da época seguia o sistema escravagista. No entanto, Paulo, após elogiar os tessalonicenses por terem aprendido de Deus a se amarem uns aos outros, recomenda que estejam prontos a realizarem novos progressos (4,9-10a). Ele pede que aqueles que abraçaram o cristianismo vivam com tranquilidade, realizem cada qual sua própria tarefa e trabalhem, pois trabalhar com as próprias mãos é uma questão de honra (4,11). Esta proposta paulina de trabalhar com as próprias mãos provocou uma verdadeira revolução ideológica no império. Como assim? Vejamos.

As pessoas livres não trabalhavam. O trabalho era de responsabilidade dos escravos ou serviçais, que representavam uma maioria. Ao propor que os cristãos trabalhassem, Paulo pregava que não existia diferenças entre trabalhos intelectuais e manuais, nem mesmo trabalhos inferiores ou superiores (5,12-13).

Paulo está apresentando uma nova relação entre as pessoas: a proposta cristã, ao contrário do sistema greco-romano, com relação ao trabalho, é um chamado a uma transformação das relações sociais. Um desejo de que o trabalho deixe de ser uma atividade do escravo, e seja de todos.

Ocupando-se de tarefas humanas, em especial dos trabalhos manuais, o cristão é levado ao recolhimento para viver em tranquilidade, o que favorece à sua reflexão interior. Além disso, trabalhando ele deixa de depender dos outros para responder às suas próprias necessidades elementares (4,12). Não por se tratar de uma questão de autossuficiência, mas de combater uma injustiça social. Porque, desde que seja um trabalho livre, o trabalho passa a ser um fator de dignidade humana.

E mais ainda. Paulo, inspirando-se em sua experiência pessoal, como bem ele nos recorda, quando coloca seu trabalho manual como manifestação de amor (2,9), vê o trabalho como forma de ajudar as pessoas mais fracas e necessitadas. Teria ações concretas mais eloquentes para expressar o amor fraterno?

Por fim, nunca é demais enfatizar que, se por um lado Paulo convida ao trabalho, por outro, condena a relação de subordinação entre escravo e senhor, como bem podemos comprovar na carta que escreve ao seu amigo Filêmon com referência a seu escravo Onésimo, na qual sugere a mudança de relação escravo-senhor. Paulo prega a igualdade, a relação de todos como irmãos.

Assim, para Paulo a relação senhor-escravo não deveria existir nas comunidades cristãs, pois todos são iguais e devem ser livres, pois Jesus Cristo veio para nos libertar. “Não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há homem nem mulher; pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3,28).

Sugestão:

Paulo ao afirmar “Tenhais consideração por aqueles que se afadigam no meio de vós, e velam por vós no Senhor. Tende para com eles amor especial, por causa do seu trabalho”(1Ts 5,12-13a), fala de um amor capaz de sacrifícios por parte dos dirigentes da comunidade e de um amor fraterno por parte da comunidade. Hoje como você vê a missão dos dirigentes eclesiais? Existe uma coordenação compartilhada?
Os tessalonicenses viviam numa sociedade em que cabia ao escravo o trabalho, em especial manual. Lendo os versículos abaixo, como você interpreta que Paulo compreende o trabalho como forma de liberdade? “Ainda vos lembrais, meus irmãos, dos nossos trabalhos e fadigas. Trabalhamos de noite e de dia, para não sermos pesados a nenhum de vós”. (2,9) “Empenhai a vossa honra em levar vida tranquila, ocupar-vos dos vossos negócios e trabalhar com vossas mãos, conforme as nossas diretrizes” (4,11)
Na carta aos Tessalonicenses, Paulo prega que “trabalhamos evangelizando e evangelizamos trabalhando”. Reflita e comente.
Você já analisou as reformas trabalhistas? Quais são as consequências para a vida do (a) trabalhador(a)?