Agosto de 2018

Diante do justo e do ímpio: o juízo finalSb 5,1-23

Façamos nossa a canção “Ando devagar porque já tive pressa”! E é com este vagar que estamos chegando ao final da primeira parte do Livro da Sabedoria. Nesta primeira parte o autor nos apresenta a sabedoria como o fio condutor para nosso bem viver. Perpassando pela existência de cada um de nós, a sabedoria, sendo um espírito amigo dos homens (1,6), nos concede, com um cunho predominantemente ético, a norma de vida que nos conduzirá à vida eterna, à imortalidade.

O autor nos levou a refletir sobre nossa existência, sobre nosso pensar e nossas ações que vão fundamentando e edificando nossa vida, e que nos conduzem ou para o bem ou para o mal. Como fez isto? Através de dois protagonistas: o justo e o ímpio. Sim!… Ao longo de nossa vida somos livres para escolher entre dizer sim à vida ou à morte. Entre ser justo ou ímpio.

Vimos que optar pelo sim à vida é estar vigilante no amor à justiça (1,1) porque ela nos leva a Deus, ela é imortal (1,15). Mas como viver esta vigilância? Nosso autor se propôs a nos orientar, falando do que nos desvia do caminho. Mostrando o pensar e agir daqueles que são amigos da morte- os ímpios (Sb 1,16–2,24). E foi além, ao chamar nossa atenção para as provocações existenciais que visam desestabilizar nossa fé, tais como o sofrimento, as dores, a morte prematura (Sb 3, 1-12; 4,7-20).

Diante dessa realidade só nos resta agora perguntar: qual deve ser o destino dos ímpios e dos justos? O texto de Sb 5,1-23, sobre o qual refletiremos, conclui a primeira parte do livro da Sabedoria, nos oferecendo esta resposta, permitindo nos, assim, que meditemos sobre as consequências de nossas escolhas

Como é belo Sb 5, 1-23, no qual o autor nos fala deste destino! Usando de recurso literário, somos conduzidos ao fim da história e convidados a presenciar o final da vida do justo e do ímpio. O autor apresenta um tribunal e os protagonistas são: o justo firme, confiante e silencioso (5,1) e o ímpio perturbado, atônito e arrependido (5,2-3).

Aquele que outrora demonstrou desprezo pela sabedoria cultivada pelo justo, ironizando-o, perseguindo-o, ditando-lhe leis, neste juízo final, toma consciência de sua insensatez (5,4-13). Consciente, reconhece agora, diante daqueles que desprezou e perseguiu, a vitória do justo (5,4-5), bem como o seu fracasso ao conceber e desfrutar de uma vida efêmera e de aparência. Reconhece seu erro em não se deixar iluminar pela luz da justiça, escolhendo o caminho da maldade e perdição (5,6-7). Agora miserável, contempla o justo como aquele que está liberto da perseguição e da morte, vitorioso, aliado de Deus, partícipe na herança celeste. Reflete sobre o vazio que foi sua vida, e se prostra defronte da luz da nova existência (5,8-13). De que serviu o seu orgulho? A sua insensatez? A sua soberba? Deixou-se conduzir pelas aparências que como a sombra não deixaram rastros, como o correio veloz ou a flecha disparada ao alvo foram fugazes, como o voo do pássaro não deixaram vestígio (5,8-11). Compreendem agora que o único rastro, a única pegada e o único fruto permanentes na vida do homem é o exercício da virtude praticado pelo justo (5,13)

E esse ímpio, que um dia proclamou uma vida presente e efêmera sem se preocupar com a morte (2,1-20), está agora vivendo a morte, sob o olhar silencioso do justo. Possuído por uma esperança tão frágil quanto a palha arrebatada pelo vento, a geada miúda arrastada pelo vendaval e a fumaça dissipada pelo vento (5,14) reconhece a sorte eterna dos justos e a proteção de Deus sobre eles (5,14-23).

Nesse final de sua história, da história de sua vida, o ímpio contempla a realidade maravilhosa da vida eterna partilhada pelo justo com Deus (5,15), Senhor da história e da criação. Reconhece no justo o aliado de um Deus guerreiro, solícito e poderoso (5,16) pleno em justiça, juízo, santidade e ira (5,18-20). Reconhece no justo a criação aliada de Deus em ação. Reconhece a sua desolação final (5,21-23).

Pausa para refletir:

  1. Leia Lc 16,19-29 e comente-o à luz de Sb 5,1-23.
  2. À luz de Sb 5,1-23, podemos nos perguntar: as minhas escolhas no dia a dia são baseadas em quais critérios?
  3. Neste ano de 2018, estamos celebrando os 50 anos da Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe realizada em Medellín. Essa conferência foi um marco importante para a Igreja da América Latina, pois nos ofereceu critérios para colocar em prática as decisões tomadas após o Concílio Vaticano II. Um dos temas principais de Medellín foi a opção pelo ser humano e sua dignidade, sintetizada no documento final da seguinte forma: “A promoção humana será a perspectiva de nossa ação em favor do pobre, respeitado em sua dignidade pessoal e ensinando-lhe a ajudar-se a si mesmo” (Medellín 14,40). Diante desta afirmação e de Sb 5,1-23, quais são as luzes que estes textos nos oferecem para analisar nossa realidade sociocultual e política?