Agosto de 2019

Somos filhos de Deus

Devagar e sempre!! Contemplativos, lá vamos nós refletindo sobre a Primeira Carta de João. Vimos, em sua primeira parte, que o autor, após testemunhar Jesus, Vida manifesta, Vida Eterna, vendo-o, admirando-o e tocando-o, se propõe a propagar a mensagem dele ouvida, de que Deus é Luz. Se ali paramos para ouvir a mensagem de Jesus; agora o autor nos detém diante da contemplação e adesão à mensagem que é Jesus: a justiça. E o que é justiça para Jesus, senão a manifestação do verdadeiro amor ao próximo? Por isso, o autor é assertivo ao garantir que todo aquele que pratica a justiça nasceu de Deus (1Jo 2,29). Portanto, desde que pratiquemos a justiça, que amemos uns aos outros, somos filhos de Deus. Somos filhos no Filho de Deus. E, à semelhança de Jesus, somos chamados a caminhar na justiça, a caminhar no amor. A ir de encontro à Luz.

Mas, o que é preciso compreender para nos assumirmos como filhos e filhas de Deus? O autor nos dá esta resposta em 1Jo 2,29 – 3,24. Que tal refletirmos um pouco sobre ela?

Pois bem! No texto, o autor começa falando de nossa filiação divina (1Jo 2,19–3,2), para, em seguida, abordar o tema da justiça, uma vez que é na prática da justiça que podemos nos reconhecer filhos de Deus (1Jo 3,3-10).

Vejamos! Em 1Jo 2,19–3,2 somos reconhecidos como filhos de Deus, porque Dele nascemos, desde que pratiquemos a justiça (2,29). Mas precisamos estar atentos: somos seus filhos, mas em processo de feitura. O batismo não é o bastante para nos garantirmos seus filhos (e aqui está uma crítica aos opositores!). O que seremos ainda não se manifestou (3,2) E enquanto não chega esta manifestação somos exortados a uma constante purificação, isto é, a uma contínua busca pela vida (3,3). Vida, negação da morte. Vida, caminho para a luz, que afugenta as trevas.

E o que não são morte e trevas, senão manifestações do pecado? Pecado que leva à iniquidade, que se contrapõe à justiça (3,4)? É com esse pensar que o autor nos conduz em 1Jo 3,3-10, ao falar da justiça e do pecado, entre ser filho de Deus e filho do Diabo (3,6-10). Justiça que é amor, pecado que é morte.

Sim! Aquele que comete pecado é do diabo (3,8). O Diabo aqui deve ser entendidos, como tudo aquilo que nos afasta da justiça e da construção do Reino de Deus. Ele não é uma personificação do mal, mas qualquer um de nós podemos ser “diabos”, quando não seguimos com coerência o projeto do Pai, que deseja que a vida e a justiça prevaleçam em nosso meio. Por isso, somos exortados a mantermos em vigilância, nos confrontando constantemente com os valores evangélicos (3,7). Diante da constante ameaça de nos desvirtuarmos do caminho do Reino, que Jesus nos manifestou para revelar, por meio do seu agir, o projeto do Pai.

Como viver a justiça que nos torna filhos/as de Deus?  Imitando Jesus! Praticando o amor! Porque a justiça se revela na prática do amor. E, é então, que o nosso autor em 1Jo 3,11-24, nos leva a refletir sobre o amor fraterno por meio da contraposição entre Cristo e Caim. Dois personagens que representam o amor e o ódio, a vida e a morte, o filho de Deus e o filho do Diabo. Caim representa o ódio que leva à morte e produz morte. Assim, também nós, se odiamos nosso irmão, podemos ser como Caim, um homicida (3,15). Desse modo, matar não é somente tirar a vida de alguém; matar também é odiar, é não ser sensível as necessidades do irmão, é agir injustamente e se calar diante das injustiças.

Mas esteja bem atento à leitura desse texto 1Jo 2,29-3-34! É importante dar destaque à reflexão do autor que nos fazer pensar entre o que já somos e o que viremos a ser como filhos de Deus, neste caminhar de encontro à manifestação que está por vir. Observe que ele diz: “o que nasceu de Deus não comete pecado (3,9) porque a Palavra de Vida permanece nele”. No entanto, reconhecemo-nos pecadores! Então, não somos filhos de Deus? Recordemos uma vez mais. Caminhamos para o tempo da manifestação. O batismo não se basta. Ser filho de Deus é viver o desafio de permanecer Nele, diante de toda sedução que pode ser o poder, a injustiça, o tirar vantagem, o satisfazer nossos interesses egoisticamente; o que o autor chama de “mundo” (3,10).  É ser livre para escolher praticar a justiça, amando ao próximo. Por sua filiação batismal, o cristão se parece com Deus, mas precisa afirmar sua semelhança. Essa semelhança deve ser crescente.

Ao aderir a Jesus com o batismo, passamos da morte para a vida (3,14). E o amor leva à vida e produz vida. Portanto, compartilhemos a vida. Temos em nós, Jesus, que deu sua vida por nós (3,16). Sigamos os passos do Mestre: amemos ao próximo. Estendamos as mãos aos necessitados (3, 17). É preciso amar com ações e não somente com belos discursos (3,18)

Enquanto filhos de Deus, corremos o risco de sermos odiados pelo mundo (3,13). Perseveremos! Aquele que guarda os mandamentos permanece em Deus e Deus nele e reconhecemos que ele permanece em nós pelo Espírito que nos deu (3,24). Assim, somos desafiados a viver o nosso batismo, a nossa adesão a Jesus Cristo e ao seu Reino!

Pausa para refletir

  1. Tem um ditado que diz: “só se joga pedra em árvore que dá fruto”. Reflita e comente esse dito de sabedoria popular, a partir de 1Jo 3,13 em que o autor nos alerta para o fato de que, enquanto filhos de Deus, corremos o risco de sermos odiados pelo mundo.
  2. O batismo é um sinal de nossa filiação divina. E 1Jo 3,2 complementa: “Já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou”. Como você vive o seu batismo? Como você vê sua comunidade vivendo o batismo? Reflita e comente.
  3. “O amor pode enfrentar a morte para salvar a vida de outro”. Jesus deu sua vida por nós. E nós? Sabemos ser justos diante desta doação? Reflita e comente.

Dica de livros para o aprofundamento

AUTH, Romi. Pais e padrinhos em preparação ao Batismo. São Paulo: Paulinas, 2018.

SILVANO, Z. Primeira Carta de João: crer em Jesus Cristo e amar uns aos outros. São Paulo: Paulinas, 2019.