ARTIGOS

Alberione e a comunicação no Concílio Vaticano II

Ir. Helena Corazza, fsp*

Em 4 de dezembro de 1963 toda Igreja celebrou a aprovação de dois importantes documentos do Concílio Vaticano II: o decreto Inter Mirifica sobre os Meios de Comunicação, e a Constituição Dogmática Sacrossantum Concilium sobre a Liturgia. Os documentos emitidos pelo Vaticano II (1962-1965) são resultados palpáveis desse grande evento que marcou a Igreja e a história. Mas para se obter resultados bons e duradouros, tudo dependeu de uma grande preparação. É dessa parte que menos se conhece, inclusive da participação influência do fundador da Família Paulina, o bem-aventurado padre Tiago Alberione que apresentou 24 propostas ao Concílio.

De fato, em 18 de junho de 1959, três anos antes da realização do Concílio, o cardeal Domenico Tardini, presidente da Pontifícia Comissão ante-preparatória do Concílio, a pedido do papa João XXIII, enviou carta aos bispos, superiores gerais de congregações religiosas, convidando-os a dar suas sugestões e pareceres ao futuro Concílio. Alberione também recebeu o convite, enviou suas propostas e participou, entre os 2.500 padres conciliares, do evento que iniciou em 11 de outubro de 1962. Ele marcou presença em quase todo o tempo, ouvindo as discussões e fazendo seus apontamentos, enviando mais cinco intervenções por escrito e assinando mais quatro junto com outros Padres.

As propostas enviadas por Alberione ao Concílio Vaticano II, demonstram o quanto ele era inserido na realidade do seu tempo, o quanto percebeu os desafios para as pessoas de Igreja e para a pastoral, chamando a atenção para as oportunidades pastorais e a necessidade de mudança para acompanhar os tempos. Pode-se observar a preocupação de Alberione em relação à missão da Igreja “ad gentes”, àqueles que ainda não estão incluídos no Cristianismo. Além de sua preocupação relativas a aspectos teológicos da mediação de Maria, Alberione mostra sua preocupação em relação às pessoas: vida religiosa, estudos, formação e vida comunitária para os sacerdotes diocesanos, estágio pastoral aos seminaristas, entre outros.

Destacamos apenas um aspecto das contribuições de Alberione em relação à comunicação na Igreja. Nas propostas, essas referências estão implícitas, quando ele pede que a missa seja rezada em língua vernácula, ou seja, a língua de cada país; quando pede a homilia na missa, sobretudo, aos domingos.

Em quase 50 anos de trabalho, o profeta da comunicação sabia muito bem o que significou abrir caminhos na Igreja no campo da comunicação, fundando duas congregações com o carisma específico de evangelizar através dos meios de comunicação (Paulinos e Paulinas). Por isso, um dos seus pedidos refere-se à organização deste apostolado na Igreja: “Um novo dicastério para os instrumentos de comunicação social”. Foram duas propostas neste sentido e uma delas, de Alberione. Afinal, a comunicação precisava ser reconhecida e alcançar a sua cidadania. E isso aconteceu com o decreto “Inter Mírifica” que em seu número 19 e que em 2 de Abril de 1964, Paulo VI transformou em Pontifícia Comissão para as Comunicações Sociais.

Outra proposta de Alberione é um problema pastoral ainda não resolvido na Igreja: as missas transmitidas através do Rádio e da Televisão, hoje também pela Internet. Esta foi muito cautelosa, mas não menos ousada: “Parece desejável que se conceda, para satisfazer o preceito festivo, a validade da assistência da missa transmitida com os meios audiovisuais, em determinadas e bem definidas circunstâncias (por ex. para os encarcerados…). Na sua versão original, que se conserva nos arquivos, Alberione exemplificava: “As irmãs de clausura para as quais não há sacerdotes suficientes”. E ainda “para aqueles que não podem ir à Igreja são obrigados a acompanhar pelo rádio ou TV”.

Há uma razão notificada pelo profeta da comunicação, que continua desafiando a prática pastoral nos dias atuais: “Os meios audiovisuais estabelecem na comunidade uma nova forma de presença e de participação que é oportuno ter em consideração”.

Quando Deus marca uma pessoa para uma missão, ele lhe dá os dons, talentos e espera dela uma resposta, às vezes, não fácil de ser entendida, nem por ela mesma, nem pelo “senso comum” ou pelo normal das pessoas. A pessoa só se sabe e sente-se impelida a ir além. O Espírito clama dentro dela e ela precisa dar uma resposta. Relendo a história e os fatos, podemos pensar e entender que bem-aventurado padre Tiago Alberione foi uma dessas pessoas.

* Jornalista, Doutora em Ciências da Comunicação

Propostas de Alberione apresentadas ao Concílio Vaticano II

  • 1. Mediação universal de Maria
  • 2. Estudos teológicos
  • 3. Catecismo
  • 4. Relações com os não católicos
  • 5. Evangelização dos infiéis
  • 6. Perigo do nacionalismo
  • 7. Breviário
  • 8. Homilia na missa
  • 9. Bíblia com notas catequéticas
  • 10. Maior poder aos bispos e aos superiores gerais
  • 11. Jurisdição eclesiástica aos Superiores gerais
  • 12. Apostolado dos leigos
  • 13. Institutos seculares
  • 14. Um novo dicastério para os instrumentos de comunicação social
  • 15. 16 Formação
  • 17. Liturgia da Missa
  • 18. Uso da língua vernácula
  • 19. Transmissão de missas
  • 20. Missa do Divino Mestre
  • 21. Cooperação entre o clero diocesano e religioso
  • 22. Vida comum do clero diocesano
  • 23. Sacerdotes e institutos seculares
  • 24. Um código litúrgico