ARTIGOS

As novas tecnologias no cotidiano de educadores e educadoras

Helena Corazza[1]

Introdução

Vivemos num contexto desafiador em que as tecnologias da comunicação estão presentes no cotidiano, sobretudo de crianças e adolescentes, desafiando educadores a uma imersão nesta nova ambiência criada pelo acesso à internet e às redes sociais digitais. A pergunta é recorrente: em que medida os educadores conseguem acompanhar esse ritmo de crianças e jovens e ter um universo comum para se comunicarem no campo educativo?

Cada contexto social e cultural requer reflexão e práticas que agreguem os diferentes saberes e desafiam a educação para a comunicação. Um trabalho realizado por um grupo de pesquisadores de Comunicação e Educação, da ECA/USP, em 2012, discutiu a Educomunicação, a partir das imagens do professor na mídia, fazendo uma leitura crítica de produtos culturais veiculados pela grande imprensa na área de impressos, rádio, propagandas, cinema, televisão e internet (CITELLI, 2012). A pesquisa deste artigo busca saber de educadores sua relação com as TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação), no cotidiano, os benefícios e desafios em relação à educação. De fato, a educomunicação constitui-se, hoje, a consolidação de um novo campo de conhecimento. Para Soares, ela inaugura um “novo campo, por sua natureza relacional, estrutura-se de modo processual, midiático, transdisciplinar e interdiscursivo, sendo vivenciado na prática dos atores sociais, através de áreas concretas de intervenção social” (SOARES, 2011, p. 25-27). Para o autor, este campo se expressa em áreas de intervenção social como: a educação para a comunicação, a  mediação tecnológica na educação, a gestão no espaço educativo e a área de reflexão epistemológica na inter-relação, comunicação/educação

Nova cultura e novas relações

Diante da abrangência do tema, o foco desta pesquisa é o educador e sua relação e apropriação com as novas tecnologias, no cotidiano. Entende-se que este é um passo importante para que aconteça mudança também nas linguagens e métodos de ensino no dia a dia. Existem várias formas e olhares para trabalhar a comunicação e a educação, uma delas é verificar a imersão dos educadores, uma vez que estas áreas vivem um permanente desafio representado pelas tecnologias da comunicação e da informação “pelas intercorrências das culturas mediáticas, pelas novas maneiras de os sujeitos serem e estarem no mundo” (CITELLI, 2011, p. 59).

A formação continuada dos professores e educadores, para sua imersão neste universo, é fundamental, a fim de que tenham acesso e se apropriem desse conhecimento. Por isso, a proposta é verificar como as novas tecnologias estão presentes no cotidiano de educadores e educadoras, como é seu acesso e uso, como se apropriam e, ao mesmo tempo, seu espírito crítico nesse modo de aquisição do conhecimento e de relação com as pessoas, sobretudo com os educandos.

Ao falar da educação a partir da comunicação, Martín-Barbero discute diversas questões que envolvem as mudanças culturais. Uma delas é o dualismo estabelecido entre o livro, que representa a razão, o argumento, a reflexão, a comunicação linear,  e o mundo da imagem que evoca uma comunicação mais popular, tida como “inculta”. As oralidades, bem como a hipertextualidade hoje trazida pela internet, envolvem, sobretudo, as novas gerações. Para ele

o que está em jogo não é unicamente a hibridação das lógicas globais do capital, com as novas expressões de um exotismo  a admirar ou denunciar, mas profundas transformações na cultura cotidiana das maiorias, e especialmente entre  as novas gerações que  não deixaram de ler, mas cuja leitura não corresponde à linearidade/verticalidade do livro, mas a uma confusa, porém, ativa hipertextualidade que, desde alguma parte do comic, do videoclipe publicitário ou musical, e sobretudo os videojogos, conduzem à navegação por Internet  (MARTIN-BARBERO, 2002, p. 94).

As novas tecnologias remetem a uma nova cultura com outras possibilidades de relacionamento. Se a cultura de Gutenberg forjou um tipo de educador e de profissional, a cultura da internet requer formação continuada para que os educadores se apropriem, no contexto atual, de todas as informações dessa nova ambiência criada pela Cibercultura, entendendo que o seu surgimento “não é só fruto de um projeto técnico, mas de uma relação estreita com a sociedade e a cultura contemporâneas” (LEMOS, 2002, p. 26).

As mudanças culturais e tecnológicas, sobretudo a internet, reconfiguram uma maneira de perceber o mundo e introduzem novas formas de conhecimento pelas novas linguagens, de modo que os educadores precisam adaptar seus conhecimentos para continuar falando com as novas gerações. Para Citelli

a questão do redesenho dos modelos educadores deve ser visto e entendido como decorrência das novas formas de perceber e mesmo sentir o mundo e onde os processos videotecnológicos desempenham papel central. No entanto, é preciso, igualmente aprender tal processo em suas ligações com as mudanças ocorridas nos instrumentos de produção, nas características que vão configurando as forças produtivas e, sobretudo, nas estratégias organizadoras do capital no mundo contemporâneo (CITELLI, 1999, p. 138).

Se, por um lado, o invento humano vai descobrindo novas formas de comunicação e informação, por outro, o capital se apropria, democratiza, de modo a fazerem parte do cotidiano. Mesmo com seu distanciamento crítico, educadores e estudiosos se veem, às vezes, “forçados” a entrar nas redes sociais digitais como condição de continuar o diálogo e ter universo comum com crianças, adolescentes e jovens. Trata-se de uma nova alfabetização à qual se pode opor certa resistência. Para conhecer mais de perto a realidade de educadores e sua imersão nesta realidade, segue o resultado desta pesquisa realizada.

Uso das tecnologias no cotidiano: caracterização do grupo pesquisado

O questionário intitulado “Pesquisa sobre o uso das novas tecnologias no cotidiano dos (as) educadores (as)” foi aplicado no dia 20 de abril de 2013 junto a professores (as) e educadores (as) do Curso de Extensão Acadêmica: “Comunicação & Educação, leitura crítica”, do SEPAC (Serviço à Pastoral da Comunicação), em convênio com o UNISAL (Centro Universitário Salesiano) de São Paulo. O curso se realiza em um semestre, com quatro temas relacionados à comunicação e à educação, perfazendo uma carga horária de 32h/aula.

Responderam ao questionário 32 pessoas, 27 mulheres e cinco homens: oito com idade entre 20 e 30 anos; 10, entre 30 e 40 anos; quatro, entre 40 e 50 e cinco, entre 50 e 60 anos. Cinco pessoas não informaram a idade. Ainda que haja um bom número de jovens educadores com facilidade de acesso à internet,  a faixa etária caracteriza uma geração que foi formada antes da internet, um dado importante a ser considerado nas respostas.

Os educadores são provenientes de Obras Sociais e Escolas Estaduais: 13 de Educação infantil, 10 de Ensino Fundamental, quatro de Ensino Médio, cinco de outras atividades relacionadas à educação. As Obras Sociais e Escolas se situam, em sua maioria, na periferia da cidade de São Paulo como Brasilândia, Morro Grande e outras da região metropolitana. Os professores de Ensino Médio são das áreas de Artes, Química, Filosofia, bem como de bairros como Vila Mariana, Jardim Peri e da cidade de Itaquaquecetuba, na grande São Paulo.

O questionário apresenta 13 questões. A primeira, diz respeito aos equipamentos disponíveis para o trabalho e as aulas.

A – Sobre os equipamentos – 32 questionários respondidos

  1. Assinale com um x quais são os equipamentos que você tem e utiliza no seu dia a dia de trabalho e aulas

(15) Telefone fixo
(20) Telefone celular
(24) Computador
(11) Laptop / notebook
( 2 ) Fax

Como se pode observar, os educadores de Obras Sociais e Escolas da periferia da cidade de São Paulo e cidades vizinhas, têm acesso às novas tecnologias com expressiva indicação do uso do computador, notebook e do telefone móvel superando o fixo.

A questão B diz respeito ao acesso à Internet, onde são convidados a expressar quais as redes sociais digitais mais usadas e o tempo diário de permanência.

B – Sobre a Internet

  1. Você tem acesso à internet? (32) Sim  ( – ) Não
  2. O que você mais usa na Internet?
    E-mail 25;  Facebook, 9; Redes Sociais 8; Sites 5; Google 5; Pesquisa 21; Notícias 5; Vídeos p/ aulas 4; Orkut, 1; Baixaki, 1; Hotmail, 1; Músicas 1; Livros 2;  Depoimentos 1;  Cursos  online 1; Diversão 1. 
  3. Quanto tempo você costuma navegar por dia na internet?
    ( 8 ) Até 1 h/dia  (  7 ) Até 2h/dia  ( 10 ) Até 3h/dia ( 6 ) De 3h a 5h/dia  ( 1 ) Mais que 5h/dia

O resultado é que as 32 pessoas afirmaram ter acesso à internet, portanto, 100%. Como a pergunta ficou em aberto para dizerem o que mais usam, há uma diversidade de informações, ficando claro o uso para pesquisas, e-mail e redes sociais, com predomínio do e-mail e das redes sociais digitais. O tempo dedicado é moderado, sendo que um grande número permanece de duas a três horas por dia.

C – Sobre o E-mail

  1. Você tem e-mail? (32) Sim ( – ) Não
    1. Durante quanto tempo você costuma usar e-mails por dia?
      ( 21 ) Até 1 h/dia    ( 2 ) Até 2h/dia    ( 4 ) Até 3h/dia    ( 3  ) De 3h a 5h/dia       ( – ) Mais que 5h/dia    ( 2 ) Direto, o tempo todo

A questão C, sobre o e-mail, também obteve 32 respostas positivas, ou seja, todos tem acesso e fazem uso dele. O que muda é a relação do tempo de permanência na internet, sendo que a maioria permanece até uma hora por dia, o que poderia ser caracterizado como um uso funcional: conferir, responder e fazer alguns contatos.

  D – Sobre sites ou blogs pessoais

  1. Você tem um site ou um blog pessoal?  ( 6 ) Sim       ( 26 ) Não
  2. Quanto tempo por dia você costuma se dedicar a este blog ou site?

     ( 3 ) Até 1 h/dia               ( 1 ) Até 2h/dia               ( 2 ) Até 3h/dia   

     ( – ) De 3h a 5h/dia          ( – ) Mais que 5h/dia       ( 4 ) Não tenho tempo

Sobre sites ou blogs pessoais, observa-se que a maioria, 26 pessoas, não tem blog ou site pessoal e, apenas seis, declaram ter. O tempo de permanência por dia também é bem menor. Quatro pessoas disseram que não têm tempo, o que pode revelar que dão prioridade a outras formas de relacionamento. Essas respostas são um indicativo de que as pessoas mais buscam informações na internet, mas ainda não estão preocupadas em produzir conteúdos para postar. Uma pergunta surge espontânea: será que os educadores estão despertados e têm formação para serem produtores de conteúdo ou são apenas usuários?

E – Sobre as Redes Sociais Digitais

  1. Você faz uso de algumas dessas redes sociais abaixo? (26 ) sim   ( 6 ) não
  2. Assinale qual e quanto tempo costuma acessar cada uma delas por dia.

      Facebook            ( 26  ) Sim        (6 ) Não

Quanto tempo por dia você costuma se dedicar ao Facebook?

( 11 ) Até 1 h/dia               ( 7 ) Até 2h/dia               ( 6 ) Até 3h/dia

( 1) De 3h a 5h/dia            (1 ) Mais que 5h/dia

     Twitter                ( 5 ) Sim        ( 27  ) Não

Quanto tempo por dia você costuma se dedicar ao Facebook?

( 5 ) Até 1 h/dia                (  ) Até 2h/dia               (   ) Até 3h/dia

(   ) De 3h a 5h/dia           (  ) Mais que 5h/dia

   Linked Inn          (3 ) Sim        (28 ) Não

Quanto tempo por dia você costuma se dedicar ao Linked Inn?

( 1 ) Até 1 h/dia               ( 1 ) Até 2h/dia               (   ) Até 3h/dia

(   ) De 3h a 5h/dia          (   ) Mais que 5h/dia

  Instagram           ( 1 ) Sim        (31 ) Não

Quanto tempo por dia você costuma se dedicar ao Instagram?

(    ) Até 1 h/dia               ( 1 ) Até 2h/dia               (   ) Até 3h/dia

(    ) De 3h a 5h/dia          (   ) Mais que 5h/dia

Sobre o uso das Redes Sociais Digitais, 26 pessoas dizem fazer uso e 6 não. A Rede mais acessada é o Facebook, com 26 indicações. Sobre o tempo de permanência, a maioria fica de uma a três horas por dia. O Twitter é acessado apenas por cinco pessoas, contra 27 que dizem não ter.  O Linked Inn também é pouco acessado, apenas por três pessoas; o Instagram é acessado por uma pessoa apenas, ou seja, não faz parte do dia a dia dos educadores.

A pergunta que segue é aberta, com o objetivo de sentir mais de perto o que os educadores pensam e como se posicionam em relação aos benefícios e aos limites ou aspectos negativos das novas tecnologias, em especial, da internet.

F – Sobre as Novas Tecnologias e o cotidiano

  1. O uso das novas tecnologias afetou o seu dia a dia? (23) Sim  ( 9) Não responderam

Em termos positivos, em quê ela afetou?

As novas tecnologias em seu aspecto positivo

Grande maioria dos educadores percebe que o uso das novas tecnologias afeta seu cotidiano e isso é claro nas 23 respostas afirmativas contra nove que não responderam. As que responderam positivamente também justificaram em que afetou no sentido de benefícios para si, com maior conhecimento e informação, e para preparar as aulas. As respostas foram agrupadas em alguns pontos considerados a seguir.

Acesso ao conhecimento em outros espaços e suportes

As respostas dos educadores revelam que a internet é tida como um espaço de acesso ao conhecimento. Dez pessoas a citaram como fonte de pesquisa; sete como espaço de informação e cinco como lugar de novos conhecimentos, com claro indicativo de que ela já é referência e fonte de pesquisa. A internet é procurada para leitura, busca de livros e pesquisas, tanto para preparar aulas quanto para o trabalho acadêmico.

Uma das possibilidades que as tecnologias oferecem é a leitura, a busca de textos ou livros na internet. Esta realidade salta aos olhos, considerada até como aspecto negativo: “Vou bem menos ou quase nunca à Biblioteca”. Nesta mudança de suportes que afetam espaço e tempo, a ideia da prateleira cheia de livros ser sinônimo de conhecimento ou de ir à Biblioteca física para buscar esse conhecimento está agora em questão.

A Biblioteca, que até agora é o lugar do conhecimento, representado pelo número de volumes existentes, no suporte livro, forjado na Era Industrial, centrada na mobilidade espacial, passa a ter novo significado na Era da Informação, que, conforme Sodré, centra-se “na virtual anulação do espaço pelo tempo, gerando novos canais de distribuição de bens e a ilusão da ubiquidade humana”. Segundo o autor, nunca houve tanta estocagem de dados e agilidade no acesso.

No que diz respeito à Revolução da informação, novo mesmo é o fenômeno da estocagem de grandes volumes de dados e a sua rápida transmissão, acelerando, em grau inédito na História, isto que se tem revelado uma das grandes características da Modernidade – a mobilidade ou a circulação das coisas no mundo (SODRÉ, 2002, p. 13-14).

A chegada da Imprensa, no século XV, foi a primeira forma de transmissão, disseminação e circulação do conhecimento pela indústria. Chartier considera que essa primeira revolução é técnica e caracteriza-se como própria do impresso. Para ele “a revolução da imprensa não consiste absolutamente numa ‘aparição do livro’. Doze ou treze séculos antes do surgimento dessa nova técnica, o livro ocidental teria encontrado a forma que lhe permaneceu própria na cultura do impresso”. Segundo o historiador, a grande mudança que preocupa é a do texto eletrônico que será uma revolução na leitura.

Ler sobre uma tela não é ler um códex. Abrem-se possibilidades novas e imensas. A representação eletrônica modifica totalmente a sua condição; ela substitui a materialidade do livro pela imaterialidade dos textos sem lugar específico […]. A revolução iniciada é, antes de tudo, uma revolução de suportes e formas que transmitem o escrito (CHARTIER, 1998, p. 100-101).

Ao acesso fácil, alia-se a agilidade para se obter as informações, o que causa satisfação e prazer. Na resposta ao questionário, as palavras facilidade e agilidade são expressões recorrentes e parecem qualificar o tipo de comunicação. “Facilidade, comunicação mais rápida, melhores informações”, dizem os educadores. A agilidade está ligada também ao prazer de buscar e encontrar com rapidez temas atraentes, interessantes, em realidades, às vezes, árduas, como é o trabalho educativo e a pesquisa. “Faço pesquisas com mais agilidade, procuro sempre os temas que me atraem (trabalho e pesquisas)”, o que revela novas formas de ler e do acesso à cultura, deslocando o eixo do livro para outras plataformas.

É nas novas gerações que essa cumplicidade opera mais fortemente, não porque os jovens não saibam ler ou não leiam pouco, mas, sim, porque sua leitura já não tem o livro como eixo e centro da cultura. Desse modo é a própria noção de leitura que está em questão, obrigando-nos a pensar a desordem estética que as escrita eletrônicas e a experiência audiovisual introduzem (MARTÍN-BARBERO, 2008, p. 74).

A expressão “melhores informações” referindo-se ao que se encontra na internet, questiona. Não foi objeto deste trabalho discutir a produção para a internet; apenas as novas tecnologias no cotidiano. Entretanto, a afirmação leva a pensar qual a relação do pesquisador com a informação: será melhor porque se encontra com facilidade e rapidez, por que é fonte confiável ou porque está pronta para o consumo?

Comunicação mais próxima e aprendizado

A pesquisa revela que o uso da internet também ajuda os educadores a se comunicarem com mais facilidade com os educandos, abrindo canais de comunicação, interação e compatilhamento: “Consigo me comunicar com mais facilidade com educadores e educandos”. Essa afirmação unida a outra: “Me aproximou mais dos alunos”, sugere que pelo fato de estar num mesmo espaço virtual de acesso,  amplia-se  o  repertório comum e isso facilita a comunicação, diminuindo distâncias. Há também quem cita a internet como possibilidade de socialização do conhecimento, de compartilhamento de ideias, o que pode revelar a reelaboração do conhecimento e não apenas uma “cesta de ofertas”, uma atitude de mero consumo.

Esta aproximação das pessoas pela internet torna-se espaço de abertura e aprendizado, um destaque em menor proporção, mas citado nas buscas de pesquisa e atualização de conhecimentos, mesmo se isso requeira tempo para aprender: “Exigiu mais tempo em atualizações para o desenvolvimento profissional e pessoal”. E a consciência de que “está sendo um aprendizado cada dia”. À medida que a pesquisa é feita em vista da preparação das aulas, há uma reelaboração das informações e adaptação a outras situações e ambientes, produzindo novos conhecimentos.

Para Aparici (2010) a Educomunicação nos apresenta uma filosofia e uma prática da educação e da comunicação baseadas no diálogo e na participação que não só precisam de tecnologias, mas também de uma mudança de atitudes e de concepções pedagógicas e comunicativas. Participação e diálogo são atitudes fundamentais no processo de comunicação e educação, que busca conhecimento e autonomia.

Além do trabalho e dos estudos, os educadores também consideram a internet como espaço de comunicação, para conhecer e encontrar pessoas, parentes distantes, cultivo de amizades. Um espaço que facilita a comunicação com o grupo e para “interagir com novos amigos”. Apenas um educador indica o uso da internet para a diversão, pois o  lúdico é atraente e prazeroso.

As novas tecnologias e seus desafios

Sobre as novas tecnologias e o cotidiano, a pergunta também trouxe aspectos negativos a serem mencionados pelos participantes.

  1. Em termos negativos, em quê ela afetou? – 15 responderam – 17 não responderam

Ao serem perguntadas sobre algum aspecto negativo em que as novas tecnologias afetam o cotidiano, das 32 pessoas, apenas 15 responderam e 17 não responderam, o que nos questiona. Algumas questões, no sentido negativo, foram levantadas em relação à busca e acesso ao conhecimento, à preocupação com o aceso das crianças e a adequação à sua idade; ao relacionamento presencial e virtual, à vida pessoal, que podem ser consideradas nessas reflexões.

A questão do “real” e do “virtual”

Revela-se nas preocupações dos educadores a questão do real, identificado como presencial, e do “virtual”, identificado como ausência do real, por ser mediado pelas tecnologias. Pierre Lèvy esclarece o sentido de virtual como o que existe em potência e pode vir a ser: “Em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real, mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras diferentes de ser” (LEVY, 1996, p. 15).

Por isso é que, quando se trata de mediação pela internet, pelo computador, ao invés de virtual, emprega-se o termo digital; portanto, mídias sociais digitais, designando a procedência da mediação, que não é apenas social, mas digital. Preocupada com as relações virtuais, uma das educadoras aponta como aspecto negativo a liquidez dos relacionamentos: “Talvez para quem não compreende a diferença entre real e virtual, a frouxidão dos laços interpessoais”. A referência à liquidez dos laços que Bauman também interroga:

Será que na verdade estão preocupados principalmente em evitar que suas relações acabem congeladas ou coaguladas? Estão mesmo procurando relacionamentos duradouros, como dizem, ou seu maior desejo é que eles sejam leves e frouxos […] que possam ‘ser postos de lado a qualquer momento’? (BAUMAN, 2004, p. 10).

A questão do virtual e do real manifesta-se no pensar corrente de que a verdadeira comunicação é a presencial, que permite às pessoas o encontro e o contato físico, olhar, ver, escutar, sem a mediação da técnica, conforme depoimento de uma educadora da periferia de São Paulo: “Não tenho nenhum ponto negativo para falar, não sou viciada na internet e procuro não passar de cinco horas por dia na mesma, e sempre procuro encontrar amigos pessoalmente para dividirmos os assuntos abordados pela net”.

A preocupação dos educadores também passa pelas programações nas redes e pelo tempo que as crianças permanecem, vendo e acompanhando o que talvez não seja “adequado” para a sua idade. Um cuidado que se revela na atitude de pais e educadores, já em outros tempos, desde livros que as crianças leem, filmes e programas de televisão a que assistem, impróprios para sua faixa etária: “O que afeta é que hoje as crianças ficam muito tempo em redes que não são adequadas para sua idade”, diz uma professora de educação infantil. Este é um cuidado que deveria acompanhar produtores, pais e educadores; entretanto, as redes sociais digitais são vias livres para postagem e acesso, de forma que só pode se resolver com a orientação.

Redes que criam dependência

A dependência é um aspecto negativo, apontado no sentido de a pessoa possa sentir-se condicionada, algo que pode ser um vício, ou seja, criar dependência. Essa foi uma postura muito trabalhada, sobretudo nos estudos de recepção, perguntando-se por que as pessoas permanecem tanto tempo diante de uma televisão ou de algum outro programa. Uma educadora assim se expressou: “Me sinto um pouco condicionada. É um pouco viciante”.

Por outro lado, há um indicativo de consciência e desejo de autonomia, nas escolhas pessoais, que requerem decisões e opções para não se deixar envolver demais a ponto de se sentir “refém”: “Se você não se pPelas idades mencionadas, educadores e educadoras, sujeitos desta pesquisa, vêm de uma experiência anterior ao computador e à internet, não se caracterizando como nativos digitais. As expressões revelam alguém que tem a dimensão do tempo, dos compromissos e, por outro lado, se sentem atraídas e envolvidas por essas linguagens e relacionamentos. Não nos cabe aqui uma análise na linha da psicologia, apenas algumas reflexões do ponto de vista da comunicação e da educação. Nesta nova ambiência das redes sociais digitais, numa sociedade de escolhas como a contemporânea, importa investir na educação para a liberdade, que envolve o sentido da autonomia e da tomada de decisões em relação aos próprios processos comunicacionais e escolhas.

Duas educadoras ainda mencionam o tempo para o relacionamento familiar. Parece que o acesso ao computador, às redes sociais, subtrai delas o tempo para o convívio familiar e afeta as relações primárias. A falta de “tempo para as minhas filhas”, “falta da comunicação familiar”. Um sentimento que pode estar ligado à administração do tempo, ou pode revelar o sentimento da geração dos “migrantes digitais”, conforme Velasco:

Para os mais jovens o essencial de sua relação com a tecnologia é a possibilidade de um mundo de relações e vínculos permanentes. A ruptura tradicional entre o pensar e o sentir, a razão e a emoção, instaurada pela educação na família e consagrada pela escola, é um tema dos migrantes digitais (VELASCO, 2012, p. 191).

Diante da questão do tempo, há uma indagação a ser feita: este sentimento de não ter tempo para o relacionamento familiar será falta de administração do tempo no sentido que, mesmo usando as redes sociais, haja tempo de convívio familiar? Ou será uma mentalidade própria dos “migrantes digitais”, que se sentem “perdendo tempo” em outro tipo de relação, que não seja presencial, enquanto para os jovens é natural?

Invasão de privacidade

Pela sua própria natureza, a internet é uma praça pública, um novo espaço público, uma infovia onde trafegam inúmeras informações que se tornam públicas aos que “navegam”, postam conteúdos, compartilham. A dimensão do público e do privado, talvez atinja na internet o limite mais tênue. Educadores revelam a sensação de “estarem expostos”, de terem a “vida pessoal exposta”, de se sentirem em situações em que se perde a privacidade: “Às vezes ficamos expostos em algumas situações”. Expressões que fazem muito sentido, pois, segundo Castells,

Essas tecnologias operam seus controles sob duas direções básicas. Primeiro, os controladores conhecem o código da rede, o controlado, não. O software é confidencial e patenteado, só podendo se modificado por seu dono. Uma vez na rede, o usuário médio torna-se prisioneiro de uma arquitetura que não conhece (CASTELLS, 2003, p. 142).

 O autor fala do fim da privacidade com a internet. Uma vez que o encanto pela liberdade foi tão grande, as empresas passaram a se sentir no direito de monitorar o local de trabalho e os acessos de seus funcionários. Cria-se um espaço global de vigilância que incide no local. “Os controles são exercidos com base num espaço definido na rede […] A internet é uma rede global, mas os pontos de acessos a ela não o são. Se há filtros instalados nesse acesso, o preço da liberdade global é a submissão local” (CASTELLS, 2003, p. 142).

Atualizações e aperfeiçoamento do sistema

Procurando entrar, de forma um pouco mais crítica, no sistema e atualizações dos softweres, foi colocada esta última questão.

  1. Como você considera as constantes atualizações do Celular, Ipad e outros softweres.

(22) aperfeiçoamento do sistema (6 ) forma de controle  ( 1 ) outro      ( 4 ) não  responderam

Respondida por 28 pessoas, mas como não houve orientação, no questionário, para assinalar apenas uma opção, algumas pessoas marcaram mais de uma. Os números revelam que a maioria entende e aceita as constantes atualizações como aperfeiçoamento do sistema, o que é um fato. A segunda opção, como forma de controle é menos percebida e interpretada. Basta estar atentos às propagandas recebidas, para perceber que os dados e todos os clics são rastreados, havendo sim, uma forma de controle de gostos e preferências. A ponderação de um educador de ensino fundamental revela que muitos são usuários, mas nem por isso deixam de ser críticos em relação ao sistema: “Aumentam as possibilidades de uso, mas, de certa forma, também acabam ‘controlando-nos’ e nos limitando ao uso do que é fornecido”.

Ao mesmo tempo em que os sistemas contribuem para o relacionamento entre as pessoas, manter os softweres atualizados é, praticamente, condição para continuar o diálogo e em comunicação, mas também é importante conhecer os mecanismos desse sistema segmentados em torno de grandes marcas, em vista do consumo:

No caso do Facebook, o combustível dessa máquina é formado pelos inúmeros aplicativos e plug-ins sociais que são oferecidos aos membros. Eles estimulam a publicação de dados relacionados aos gostos e comportamentos e permitem o mapeamento da distribuição dos anúncios das empresas que compram ali os espaços publicitários (BEIGUELMAN, 2012, p.23).

Mesmo reconhecendo o aperfeiçoamento do sistema, um participante assinalou as atualizações constantes como: “Comercial no fornecimento de serviços e tentativa de criar uma dependência e controle dos usuários”. Uma educadora, que faz uso do computador e da internet mais para pesquisa e trabalhos acadêmicos e não usa as redes sociais, fez esta afirmação: “É puro consumismo”. Sem dúvida, vive-se num contexto nebuloso, onde um poder invisível parece comandar as ações.

O que singulariza a grande corporação da mídia é que ela realiza limpidamente a metamorfose da mercadoria em ideologia, do mercado em democracia, do consumismo em cidadania. Ela combina a produção e reprodução cultural do capital, operando decisivamente na formação de “mentes” e “corações” em escala global (PUNTEL, 2010, p. 140).

Dessa forma, importa investir na formação continuada de educadores e lideranças para que a apropriação das novas formas de conhecimento e relacionamento resultem em benefícios para a educação cidadã, nesta nova ambiência.

Considerações finais e desafios

Muitos são os desafios para os educadores no acesso às novas tecnologias, em especial, às mídias sociais digitais. O acesso já está bastante democratizado, conforme demonstrado nesta pesquisa, mesmo sabendo de pessoas que ainda vivem na exclusão digital. Na cultura contemporânea, não há dúvida alguma de que é condição para o educador estar nesta nova ambiência para poder dialogar com os educandos, a partir de um universo comum. Entretanto, permanece a pergunta: acesso para quê?

A primeira resposta é a necessidade de “estar juntos”, compartilhar, fazer parte de uma sociedade que tem esse modo de vida e de relacionamento. Ficou demonstrado que as novas tecnologias contribuem na pesquisa, leitura, informações, possibilidades de diálogo e compartilhamento de saberes.

Importa orientar também para que as mídias sociais digitais sejam espaço para o compartilhamento de temas construtivos e não apenas exposição da vida pessoal ou da intimidade de pessoas, famílias e até grupos. Criar uma agenda de temas educativos, sociais e também de lazer saudável contribui para divulgar imagens verdadeiras e, muitas vezes inéditas, porque alternativos à grande mídia.

Um desafio para a formação continuada é o conhecimento mais profundo desta linguagem no sentido de verificar fontes de acesso e orientar para a escolha de programas e redes que contribuam na produção de conteúdo e mobilizações sociais. O estímulo da criatividade aos alunos, por parte dos professores, é um método importante para crescer no envolvimento, na autoestima e na cidadania.

Referências Bibliográficas

APARICI, Roberto. Educomunicación: más allá del 2.0. Barcelona: Gedisa Editorial, 2010.

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido. Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

BEIGUELMAN, Giselle. “Espaços de subordinação e contestação nas redes sociais”. In: Revistausp, n. 92, dezembro/Janeiro/Fevereiro 2011-2012, p. 20-31.

CASTELLS, Manuel. A Galáxia da Internet. Reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

CHARTIER, Roger. A ordem dos livros. Brasília: Ed. UnB, 1998.

CITELLI, Adilson. Comunicação e educação: implicações contemporâneas. In: CITELLI, Adilson e COSTA, Maria C. Castilho. Educomunicação, construindo uma nova área de conhecimento. São Paulo: Paulinas, 2011, p. 59-76.

(org.). Educomunicação. Imagens do professor na mídia. São Paulo: Paulinas, 2012.

Comunicação e educação, a linguagem em movimento. São Paulo: Cortez, 1999.

LEMOS, André. Cibercultura. Tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2002.

LÉVI, Pierre. O que é virtual? São Paulo: Editora 34, 1996. Tradução de Paulo Neves

MARTÍN-BARBERO, Jesús. La comunicación desde la comunicación. Buenos Aires: Ed.Norma, 2002.

Tecnicidades, identidades, alteridades: mudanças e opacidades da comunicação no novo século. In: MORAES, Dênis de (Org.). Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008.

PUNTEL, Joana T. Comunicação. Diálogo dos saberes na cultura midiática. São Paulo: Paulinas/SEPAC, 2010.

SOARES, Ismar de Oliveira. “Educomunicação: um campo de mediações”. In: CITELLI, Adilson /COSTA, Maria C. Castilho. Educomunicação, construindo uma nova área de conhecimento. São Paulo: Paulinas, 2011, p. 13-29.

SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho. Uma teoria da comunicação linear e em rede. Petrópolis: Vozes, 2002.

VELASCO, Maria Teresa Quiroz. “Educar en  otros tiempos. El valor de la comunicación”. In: PARICI, Roberto (org.) Educomunicación: más Allá del 2.0. Barcelona: Gedisa Editorial, 2010, p. 187-203.

 

[1]. Jornalista, Letras, doutoranda em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. Coordenadora de cursos no SEPAC, professora. E-mail: helena.corazza@paulinas.com.br