ARTIGOS

Contribuições e desafios das mídias católicas

Joana T. Puntel

III Mutirão da Comunicação – 2003
Salvador- BA 

Introdução

Falar das contribuições da mídia católica significa, antes de tudo, contextualizá-las numa instituição que se chama Igreja e, no caso, Católica. Por outro lado, seria um truísmo dizer que a Igreja sempre se interessou pela comunicação. Portanto, tenho por certo que, neste momento, não se trata de elencar números e variedades de mídias católicas existentes no Brasil (certamente numerosas!). Nem mesmo listar os muitos batalhadores no campo da comunicação, que poderiam ser denominados como “profetas”. É parte da história os esforços sem conta de articulações e políticas na comunicação católica. A implantação e o caminho percorrido pela pastoral da comunicação. Os crescentes ensaios, que já se tornam realidade, das redes de comunicação. Portanto, o interesse é evidente.

A diferença está na maneira com que a Igreja se ocupou da comunicação através dos séculos. A trajetória é longa, diversificada, lenta por vezes, recrudescida por outras. Encorajadora em determinadas situações. Audaz em circunstâncias particulares. Atualmente, o que parece constituir centralidade nas mídias católicas são os desafios da cultura midiática que, no contexto das tecnologias de comunicação, giram ao redor de dois pontos centrais: o desafio cultural e o desafio ético.

Vivemos em uma sociedade tecnocrática, imersos na cultura midiática. Daí que, ao falarmos em contribuições, automaticamente nos referimos à prática, a produtos “palpáveis”, “finalizados” para o mercado. E quando pensamos em desafios, somos tentados a nos voltar para as perspectivas de “futuro”. No entanto, temos que falar já do presente. E abordá-lo já como um desafio. Por que do presente? Porque os fluxos da interação simbólica refletem a concepção dos processos de comunicação, traduzidos em mecanismos e práticas às vezes mais, por vezes menos adequados à finalidade das Instituições, no caso a Igreja, com uma missão bem definida.

A trajetória da Igreja e sua prática na reprodução simbólica (comunicação)

Quando se examina a história da comunicação da Igreja, numa perspectiva da história social ou da história das relações entre a Igreja e a Comunicação, pode-se identificar quatro fases, bem definidas. No momento atual, eu ousaria acrescentar em tal trajetória uma quinta fase, como elucidaremos mais adiante.

Tais fases são colocadas no contexto dos novos instrumentos de reprodução simbólica, iniciando com a imprensa no século XV, de maneira que os novos meios de transmissão do saber vão sendo absorvidos, utilizados e instrumentalizados de acordo com o paradigma de comunicação da época. Acompanhando, então, as mudanças históricas que forçaram transformações na estrutura organizacional, tanto na sociedade como na Igreja, dá-se um confronto da instituição eclesial com os meios de comunicação. Assim temos a primeira fase, caracterizada por um comportamento da Igreja orientado para o exercício da censura e da repressão. Período extenso e intenso projetado através da Inquisição. Nesta fase, a Igreja é a intermediária entre a produção do saber (não somente o teológico) e a sua difusão na sociedade.

Uma segunda fase demonstra mudanças profundas caracterizadas pela aceitação desconfiada dos novos meios. O exercício do controle sobre a imprensa, a vigilância sobre o cinema, rádio marcaram a trajetória da Igreja na época. Entretanto, a sociedade, que se transformava rapidamente, impelia a Igreja a ” adaptar-se aos novos tempos” e o comportamento eclesial sofre alterações: “começa a aceitar, ainda que desconfiadamente, os meios eletrônicos”. Sobretudo, começa a fazer uso, a servir-se dos meios para a difusão das suas mensagens.

Na terceira fase, encontramos um ritmo veloz, é a velocidade com que as transformações sociais e tecnológicas acontecem. O imperativo para a Igreja “acertar o passo” e adaptar-se ao mundo contemporâneo apresenta-se sob a necessidade imperiosa de “aggiornamento” que emerge do Vaticano II. No campo da comunicação, dá-se uma mudança brusca de rota, se comparada ao comportamento anterior. Trata-se de, até certo ponto, um “deslumbramento ingênuo”, segundo Marques de Melo, porque a atitude da Igreja moldava-se na recusa da comunicação. “De repente, ela assume a postura de que é preciso evangelizar.utilizando os modernos meios de comunicação. Admite que a tecnologia da reprodução eletrônica pode ampliar a penetração da mensagem eclesial.”

A quarta fase refere-se sobretudo à América Latina, depois de Puebla e se distingue pelo “reencontro do povo pela Igreja”. Revela uma “redescoberta da comunicação, em toda a sua plenitude”. Dá-se o superamento do “deslumbramento ingênuo”. A Igreja adota uma postura crítica, iniciando por repensar a comunicação, e por deixar de “acreditar que a tecnologia pode resolver os problemas da ação evangélica”. A Igreja busca novos padrões (é o tempo forte das comunidades eclesiais de base), incentiva e respalda experiências de comunicação do próprio povo, providenciando e facilitando para que os seus próprios meios fossem a voz dos que não têm voz. É o momento em que se estimulam a criação de meios populares de comunicação, pois vivia-se sob a ditadura militar.

O que não poderíamos deixar de considerar, entretanto, é o fundamental aspecto que constituiu (e constitui) a grande “reviravolta” da reflexão do magistério eclesial em relação ao mundo da comunicação e que consideramos como a quinta fase da relação Igreja-Comunicação. Um estudo mais aprofundado das orientações da Igreja nos leva a perceber que na história dos documentos e pronunciamentos do magistério, com respeito às comunicações sociais, uma significativa evolução de pensamento começa a tomar corpo. Mesmo no que diz respeito aos new media, a Igreja começa a expressar-se com mais clareza a respeito do impacto que eles têm na construção social, tanto que a Igreja passa a refletir sobre a comunicação (e aqui está a novidade!) não mais de forma restrita ou somente como “meios” ou “instrumentos” (isolados) a serem usados ou dos quais precaver-se. Mas ela refere-se a como que um “ambiente”, no qual estamos imersos e do qual participamos. Trata-se de uma cultura, a cultura midiática. Vamos encontrar a iluminante “revolução” de pensamento não em um documento específico sobre a comunicação, mas em um texto dedicado ao novo enfoque de missão da Igreja no mundo atual, a encíclica Redemptoris Missio (1990), que ao referir-se aos novos “areópagos” modernos como lugar de evangelização (missão), coloca o mundo da comunicação em primeiro lugar e insiste no novo contexto comunicativo como uma “nova cultura”.

Assim afirma o documento:
O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações.Os meios de comunicação social alcançaram tamanha importância que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais.Talvez se tenha descuidado um pouco este areópago: deu-se preferência a outros instrumentos para o anúncio evangélico e para a formação, enquanto os mass-media foram deixados à iniciativa de particulares ou de pequenos grupos, entrando apenas secundariamente na programação pastoral. O uso dos mass-media, no entanto, não tem somente a finalidade de multiplicar o anúncio do Evangelho: trata-se de um fato muito mais profundo porque a própria evangelização da cultura moderna depende, em grande parte, da sua influência. Não é suficiente, portanto, usá-los para difundir a mensagem cristã e o Magistério da Igreja, mas é necessário integrar a mensagem nesta « nova cultura », criada pelas modernas comunicações. É um problema complexo, pois esta cultura nasce, menos dos conteúdos do que do próprio fato de existirem novos modos de comunicar com novas linguagens, novas técnicas, novas atitudes psicológicas. (RM 37,c).

Tal referimento do magistério eclesial é sinal de uma “mudança” na compreensão da relação entre Igreja e mídia: não mais desconfiança, nem simples lógica instrumental. A Igreja afirma o modo de comunicar de forma inculturada “na” e “pela” “cultura midiática”. É uma expressão que carrega um novo conceito seja para o esforço e o estímulo em usar os mídia, como a disponibilizar cursos de formação para aprender a usar os new media. Trata-se, porém, de algo mais, um ir além: depois do período do “uso” (e do desprezo e rejeição por parte de alguns), chegou o momento de adquirir mais profundamente a cultura e a linguagem da mídia.

Portanto, a novidade dos últimos documentos da Igreja consiste em compreender os mídia como uma cultura dos nossos tempos. De fato, vivemos em uma nova “midiaesfera”, “onicompreensiva” e global, que representa “a nova infra-estrutura no interior da qual a humanidade está criando novas redes de comunicação e relação, e ao mesmo tempo está lutando para conservar certo senso de dignidade humana”.

A nossa fase atual: uma encruzilhada… Novos desafios na cultura midiática

Hoje vivemos uma “encruzilhada” mediante os desafios da cultura midiática, pois a comunicação se apresenta progressivamente como elemento articulador da sociedade. Desafios que ultrapassam o “uso” da tecnologia e tocam a esfera da cultura e da questão ética.

A comunicação como elemento articulador da sociedade

No contexto de pós-modernidade, a comunicação se apresenta sempre mais como elemento articulador da sociedade, vivemos imersos em uma cultura midiática. A comunicação é descrita, hoje, com uma variedade e diversidade de definições porque, ao longo do tempo, conquistou novos parâmetros junto à economia, à política, à filosofia e à cultura. Seria necessário um tratado longo e diversificado, mas também aberto, deixando espaço para a contínua mudança social que brota das novas tecnologias comunicativas. Certamente, há modos e modos de apresentar o discurso, segundo a visão e a finalidade que se deseja quando se fala em comunicação. Não obstante a diversidade de ângulos com que ela pode ser enfocada, encontramos, no entanto, um consenso entre os estudiosos da sociedade ao indicar a comunicação como um aspecto essencial, que articula e move a lógica da mudança hoje.

Não há dúvida de que todo o universo da comunicação foi sensivelmente influenciado, nos últimos anos, pela intervenção de novidades técnicas que revolucionaram as características das modalidades operativas, dos valores e dos aspectos culturais. O decênio que há pouco findou, foi definido pelos estudiosos como década digital, isto é, um período no qual as tecnologias vídeo-digitais foram amplamente utilizadas nos sistemas televisivos, seja na recepção como na transmissão de sinais. O progresso da tecnologia, especialmente da multimedialidade, convive sempre mais com o nosso dia a dia e se verifica, de forma crescente, uma invasão eletrônico-comunicativa do social. Nasce assim, em 1984, a palavra “ciberespaço”, definida como o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores. Nesse contexto ocorre uma mudança que dá início a uma série de transformações, inclusive no modo de conceber o computador, isto é, os instrumentos informáticos não são concebidos apenas como meios de transformação e uso da informação, mas também como instrumento de suporte para as outras atividades do indivíduo.

Essas inovações trazem em seu bojo vantagens indiscutíveis e notáveis progressos também do ponto de vista sócio-cultural. As novas tecnologias da comunicação constituem um aspecto essencial da sociedade industrial avançada: dos bancos de dados aos instrumentos interativos, da alta definição à realidade virtual, do satélite à fibra ótica, do telefone celular ao fax, à Internet. A visão atual e de futuro que se propõe à sociedade na sua mudança de hoje nos impele a olhar a comunicação social como um fenômeno cultural dos nossos tempos, que organiza e move a globalização, a modernidade e a pós-modernidade. A perspectiva futurística da comunicação é constituída pelas “auto-estradas” eletrônicas, que apresentam o planeta envolto em uma infinita rede comunicativa aonde a pessoa, em qualquer lugar do globo, pode entrar em contato com outra pessoa, cultura, trabalho, entretenimento. Chegou-se a uma etapa na qual cada pessoa se transforma em um “nó” comunicativo coligado a todos os outros. Nessa perspectiva, não se poderá mais viver senão “em rede”.

Desafios emergentes que ultrapassam o “uso” da tecnologia

O desafio cultural

Considerando o quadro evolutivo da trajetória da comunicação, nas suas diferentes fases, a comunicação chegou, hoje, a constituir-se como um fenômeno que não somente é “usufruído”, mas que vem definido como uma cultura, a cultura midiática. Ou seja, aquele “ambiente vital”, “o conjunto de valores”, o “estilo de vida” que realmente constitui o elemento articulador que gera, administra, apóia, impulsiona e sustenta aqueles aspectos mencionados precedentemente. Estamos assistindo a “aurora de uma nova organização da vida coletiva e pessoal”.

As tecnologias comunicativas atuais, o processo de produção medial, as ciências da comunicação, o uso difuso a nível mundial das “máquinas de comunicar” tem operado uma revolução: a comunicação não é mais um conjunto de meios “singulares” (imprensa, jornal, cinema, rádio, televisão, computador, etc.), mas a comunicação se tornou um “ambiente vital”, isto é, uma cultura que influi e na qual se move cada aspecto da vida individual e social. Assistimos o emergir da sociedade de informação que tem originado uma “nova geração”. É aquela, em outras palavras, que diz respeito ao “Computer geração, Cibernética geração, Chip, Card, Cabo, Crítica geração, etc. O protagonista da sociedade de informação é o “C” geração. Uma geração que não somente comunica a distância, mas através da cibernética, com um monitor, cria uma realidade: a realidade virtual do mundo. A geração “C” é uma potência torrencial que não tem direção e onde a objetividade não tem importância. “C” se situou na sociedade como uma força prepotente que muda a forma da comunicação, a relacionalidade humana, a vida pessoal e a fisionomia intrínseca e extrínseca da sociedade. É já um “ambiente vital”, por isso é uma cultura.

Pondo a comunicação no contexto da “pós-modernidade”, ela não se limita mais a um único setor (aquele dos meios de comunicação social), da iniciativa humana. A comunicação hodierna inaugura o advento de um complexo modo de viver, redistribui a experiência humana, dá início a um tipo de “civilização” na qual se encontram as culturas e os vários modos de pensar, de agir, de sentir: isto é, surge a interculturalidade e a interdisciplinaridade. A pós-modernidade emerge da modernidade e traz consigo a configuração de “civilização” da modernização das mudanças complexas e abrangentes em todos os aspectos e dimensões da existência humana, por isso, hoje (…) a comunicação não é mais um conjunto de “instrumentos”, de “meios”, mas é uma cultura, afirma o estudioso do fenômeno da comunicação Andréa Joos.

Acontece freqüentemente que nos encontramos despreparados diante das novas tecnologias, e assim, o risco de não as usar adequadamente. Mas aqui surge o primeiro grande desafio, na nossa opinião: não se trata apenas de a Igreja preparar-se “profissionalmente” (tecnicamente) para o uso das novas tecnologias e assim saber “mecanicamente” operacionalizar as novas invenções. O eixo fundamental reside no fato de compreender o que significa encontrar-se diante de uma verdadeira “revolução” tecnológica que exige ir além dos instrumentos, e tomar consciência das “mudanças” fundamentais que as novas tecnologias operam nos indivíduos e na sociedade, por exemplo nas relações familiares, de trabalho, etc. A questão não se coloca entre o aceitar ou rejeitar. Estamos diante de um fenômeno global, que se conjuga com tantos outros aspectos da vida social e eclesial. As palavras de João Paulo II na encíclica Redemptoris Missio consideram o universo da comunicação social como o “primeiro areópago do tempo moderno” e proclamam a necessidade de superar uma leitura simplesmente instrumental dos mídia. Diz o Papa: “Não basta usar (os meios) para difundir a mensagem cristã… mas é preciso integrar a mensagem mesma nesta ´nova cultura` criada pela comunicação social” (n. 37).

Não basta apenas dispor de meios ou de um treinamento professional; é preciso uma formação cultural, doutrinal e spiritual, bem como considerar a comunicação mais do que um simples exercício na técnica, como afirma o recente documento da Igreja Ética na Internet (n.11,3). A encruzilhada se dá no fato de que a Igreja precisa da competência e prudência para não deslanchar somente no campo da potencialidade das novas tecnologias da comunicação, mas no discutir e refletir nas suas implicações, seja do ponto de vista de sua missão, do cultural, econômico e político, e assim atuar com uma prática que se demonstra firme, convicta, competente e adequada, sabendo conjugar sua missão com as diferentes linguagens existentes no processo comunicativo.

Trata-se de refletir e estabelecer “eixos essenciais” que norteiem a pastoral da comunicação com coesão de princípios (sempre renovados!) e aplicados de forma inculturada e que ajudem as pessoas a viverem a sua fé de forma autêntica e completa sem o peso total na emoção. É preciso ter em conta que a apropriação humana das capacidades técnicas não é uma mera aprendizagem da manipulação técnica dos dispositivos; pressupõe uma indagação e um questionamento acerca das faculdades imaginárias da experiência, das suas dimensões ontológica, ética e estética. Isto vai mais além do que simplesmente cair na “tentação” atual do marketing da fé.

Estamos imersos no fluxo da comunicação mediatizada come se fosse “num aquário”. Ninguém é excluído do contato. Mudam os conceitos de tempo e espaço. Trata-se de uma revolução pervasiva que pesa nos conteúdos do pensamento, sobre a experiência da vida cotidiana e sobre as estruturas mesma da pessoa até o ponto de determinar uma nova compreensão da realidade. Isto influi na vida das pessoas e sobre a missão que somos chamados a desenvolver na Igreja e no mundo.

A visão atual e de futuro que nos propõe a sociedade na sua mudança de época, e o Magistério da Igreja nos impulsiona a levar em consideração, é compreender a comunicação social como um fenômeno cultural do nosso tempo que requer formação cultural, ou seja, não se trata apenas de elencar mais uma nova tecnologia no rol existente, mas considerar os vários e novos discursos que a semiologia, as linguagens, a mediação.nos oferecem e nos fazem conceber a comunicação de maneira acentuadamente diferente do que a visão tradicional da mesma. O estudo da mídia deveria ser uma tarefa humanista, mas também humana. Humanista em sua preocupação com o indivíduo e com o grupo. Humana no sentido de estabelecer uma lógica distinta, sensível a especificidades históricas e sociais e que recusasse as tiranias do determinismo tecnológico e social.

O desafio ético

As orientações do Magistério eclesial presente nos últimos documentos da Igreja sobre comunicação vêm insistentemente enfocando a questão ética. Assim temos Ética da Publicidade (1997), Ética nas Comunicações Sociais (2000), Ética na Internet (2002). O conceito da Igreja a respeito dos meios de comunicação social é fundamentalmente positivo, encorajador. Ela não se limita simplesmente a julgar e condenar; pelo contrário, a Igreja considera os meios de comunicação não somente como produtos da inteligência humana, mas também como dádivas de Deus e verdadeiros sinais dos tempos. Contudo, a Igreja está ciente de que os mass media nada fazem por si mesmos; as pessoas podem utilizá-los como preferem. Assim que, ao refletir sobre esta temática, a Igreja afirma que deve “enfrentar honestamente a ‘mais essencial’ das questões levantadas pelo progresso tecnológico: se, como resultado disto, o ser humano ‘torna-se verdadeiramente melhor, isto é, mais amadurecido do ponto de vista espiritual, mais consciente da sua humanidade, mais responsável, mais aberto para os outros.”

Os princípios éticos relevantes apontados pela Igreja com respeito à comunicação social, e que são enfatizados como necessidade de reflexão, debate e diálogo, configuram-se na solidariedade, subsidiariedade, justiça, eqüidade e verdade. Com firmeza, a Igreja aponta que a ética na comunicação social não se reduz nas imagens do cinema e televisão, nas transmissões radiofônicas ou páginas impressas e na Internet, mas “a dimensão ética está relacionada não só ao conteúdo da comunicação e ao processo de comunicação, mas nas questões fundamentais das estruturas e sistemas que, com freqüência incluem grandes problemas de política.” E acrescenta que “pelo menos em sociedades mais abertas a principal questão ética pode dizer respeito ao modo de equilibrar o lucro em relação ao serviço de interesse público, compreendido segundo uma concepção global do bem comum”. Neste sentido o documento é enfático em relevar que o princípio ético fundamental é: “a pessoa e a comunidade humana são a finalidade e a medida do uso dos meios de comunicação social”.

Sem dúvida, a questão ética na comunicação está se tornando cada vez mais objeto de preocupação na sociedade em geral, pois da sua falta derivam muitas e graves conseqüências, que atingem o nosso planeta e seus habitantes. Está-se tornando o tema de debates em círculos acadêmicos, congressos e outras esferas. Parece que a própria sociedade atinge o ápice na busca para reorientar-se e eliminar tantos aspectos que não contribuem para a dignidade da pessoa humana. Fica a pergunta, como desafio: não seria este um “tempo favorável” para a Igreja se tornar a “verdadeira promotora” de debates e reflexões (não somente esporádicas!) sobre a ética nas comunicações sociais? A contribuição seria excelente para colocar em prática as orientações do magistério eclesial contemporâneo.