Coronavírus – Uma interpretação bíblica – Por Zuleica Silvano, fsp

            Ao percorrer as redes sociais, nesse momento de pandemia do coronavírus, já me deparei com várias tentativas em explicá-la por meio de textos bíblicos, que vão do pecado de Adão e Eva, passando pelas pragas no Egito até a realização do Apocalipse. Essas explicações tentam interpretar essa realidade como uma manifestação do castigo divino, numa imagem de um Deus mal, que deseja acabar com a humanidade. Como é fácil acusar Deus pela irresponsabilidade humana e colocar em dúvida o seu imenso amor por nós. Acredito que nesse momento da Quaresma cabe a cada um/uma de nós refletirmos sobre o sofrimento de tantas vítimas do vírus de nosso egoísmo, do ódio…

            Uma das coisas que eu admiro em Paulo é a sua capacidade de responder aos problemas existentes nas comunidades à luz da fé cristã. Penso que é essa atitude que somos convocados/as a ter nesse momento. Acredito que outra atitude é a de pensar nas consequências éticas de nossas interpretações bíblicas, pois uma reflexão apressada, equivocada pode causa muitos danos (e nós mulheres… sabemos bem disso!).

            Pensava num texto bíblico que poderia nos ajudar a aprofundar essa realidade e me recordava de Fl 2,1-11. Nesse texto, Paulo tem a intenção de falar do “bem comum”, da necessidade de cada um não cuidar “do que é seu, mas também do que é do outro” (Fl 2,2-4). Essas atitudes têm como fundamento o chamado hino exortativo cristológico, que não tem a função de dizer quem é Jesus simplesmente, mas em dizer como nós somos chamados a ser e agir, da necessidade de nosso processo de kênosis, de esvaziamento.

            O hino inicia com uma frase ambígua, dado que pode ser interpretada no sentido pessoal e comunitário. Ambiguidade essa talvez querida por Paulo, pois nos convida a ter o mesmo modo de pensar de Jesus Cristo dentro de nós e entre nós (v. 5). Essa ambiguidade nos ajuda a compreender a necessidade de uma conversão pessoal, que gere uma mudança ao nosso redor. Por isso, esse hino que expressa o itinerário de Cristo, fundamenta a identidade cristã e sintetiza os pontos fundamentais do pensar de Paulo sobre a ética. Um desses pontos é o agir marcado por uma experiência pessoal e vital do evento salvífico da morte e da ressurreição de Jesus e da lógica da Cruz e da Ressurreição, que consiste na fidelidade de Jesus em manter até o fim o projeto do Pai, na gratuidade de Deus (Fl 3,1b-4,1) e do seu imenso amor (Rm 8,31-39). Ao sermos inserido no Mistério do servo Jesus Cristo, pelo batismo, somos chamadas/os a sermos servidoras/es e ter uma existência caracterizada pela ressurreição de Jesus, gerando vida ao nosso redor e nos deixando guiar pelo Espírito Santo.

              Somos convocados a realizar aqui, na história, o que desejamos viver eternamente, que é a comunhão entre nós e com o nosso Deus. Acredito que a Campanha da Fraternidade deste ano, que clama por mais vida (dom e COMPROMISSO), e o apelo de Paulo não nos exortam a realizar ações paliativas, mas em humanizar nossas relações, ou melhor, em viver radicalmente nosso seguimento a Cristo Jesus. Essa é a minha reflexão nesse momento…assim pediria que também você faça esse exercício, como fez Paulo, de olhar essa realidade e de refletir à luz da fé cristã. A palavra é sua! Um beijo online no coração!

Zuleica Silvano –  é paulina, mestra em exegese bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma e Doutora em teologia bíblica pela Faculdade Jesuíta de Teologia (FAJE) em Belo Horizonte. É assessora no Serviço de Animação Bíblia/Paulinas (SAB) e professora no Departamento de Teologia da FAJE, em Belo Horizonte-MG.

 

 

Aproveitando a dica do Moisés Sbardeloto, também sugiro ler esse verbete do Dicionário de Teologia Latino Americana sobre a questão do mal, leitura muito oportuna neste momento:

http://theologicalatinoamericana.com/?p=1293.)