Fevereiro de 2019

No avesso de uma ruptura está o amor!

Como estamos? Prontos? Dispostos? Com nossa Bíblia aberta na Primeira Carta de João? Oxalá que nossas reflexões, ao longo deste ano com nossas Dicas Bíblicas, nos conduzam a uma caminhada que seja intensa, reflexiva, mas com esperança, muita esperança. Esperança de paz diante de tantas divisões sociopolítica que estamos vivendo!

Pra começo de conversa precisamos nos situar no contexto da Primeira Carta de João e olharmos para o autor e seu primeiro leitor, para só então ousarmos ler e permitir que sua releitura se faça em nosso momento, em nosso contexto, penetre em nosso coração e nos torne seus mais novos leitores.

Hoje praticamente não compreendemos outra forma para nos comunicar que não seja por meio da internet. A palavra do dia é Wi-Fi, é whatsApp, ou, popularmente, o “ZAP”! Mas houve um tempo em que a forma mais utilizada na comunicação era a carta, caracterizada pelo diálogo entre um remetente e um destinatário. E é nos primórdios desse tempo que vamos nos colocar. Nosso texto é uma carta possivelmente escrita entre os anos 100 a 110 d.C.

Quem a escreveu? Ao ler o título “Primeira Carta de João”, somos induzidos a concluir que seu remetente tenha sido João, o discípulo ou o evangelista. Mas terá sido mesmo? Vejamos!

Nessa nossa carta, o autor sequer se apresenta. Há indícios significativos que nos levam a acreditar que tenha sido o evangelista João, por apresentar temas que ocorrem no Evangelho segundo João, como, por exemplo, trevas e luz, verdade e mentira, o amor para com Deus e ao próximo.

No entanto, a carta aborda também outros temas, em que não há tanta afinidade com o Evangelho Joanino, mas com outros livros do Novo testamento, ou temas que retratam o contexto das comunidades primitivas entre os anos 100 a 110 d.C. Assim, toma consistência a ideia de que o autor tenha sido alguém pertencente às comunidades joaninas, mas posterior ao evangelista João.

De uma forma ou de outra, persiste a certeza de que o autor é membro de uma comunidade joanina, e em nada minimiza o valor, a beleza e a mensagem do texto.

A quem o autor se dirige? Quem era o seu destinatário ou seu interlocutor? Na carta não fica explícito qual seja esse destinatário. A partir do seu teor, supõe-se que tenha sido uma carta aberta, escrita à comunidade joanina, haja vista expressões que utiliza tais como “filhinhos” e “caríssimos”.

Por que escrevê-la? Ora, não teríamos como responder este questionamento sem tomar conhecimento do momento vivido pela comunidade, pois nele está a motivação para escrever essa carta. Vamos lá?

Na comunidade joanina um grupo de seus membros se deixou influenciar por pensamentos filosóficos e religiosos da época. Essa doutrina afirmava que o ser humano se salvava graças a um conhecimento religioso especial e pessoal. Como consequência desses pensamentos, esse grupo passou a negar a Jesus como Messias e a se gloriar de conhecer a Deus, de amá-lo e de estar em íntima união com Ele. Afirmavam-se iluminados, livres do pecado e do mundo e o amor ao próximo passou a ser irrelevante para eles.

Como se pode observar, esse grupo passa a dar uma interpretação diferente àquelas pregadas pelo evangelista João, o que provocou uma cisão para com aqueles que se mantinham fiéis a esses ensinamentos.

Diante desta realidade, houve uma ruptura na unidade da comunidade, e foi esse o fato que levou nosso autor a escrever essa carta. Ele precisava se manifestar, reagir a essa postura que colocava em risco a fé professada. Ele tinha necessidade de se dirigir à sua comunidade. Notemos que a carta não pretende apresentar elementos novos, mas esclarecer aspectos da tradição joanina que estavam sendo questionados, criticados e combatidos por esse grupo dissidente. Era preciso resgatar a unidade da comunidade. Era preciso fazer prevalecer a união, o amor!

Realidade semelhante de rupturas e conflitos vivemos hoje. Com esse olhar se sinta então convidado e convidada a ler a Primeira Carta de João, saboreá-la e refletir sobre a realidade das comunidades primitivas e sobre nossa vivência como cristão e cristã na contemporaneidade.

Pausa para reflexão:

  1. Leia Jo 1,14-15 e 1Jo 1,1-4. Compare e reflita.
  2. Há algum conflito em nossa comunidade que se assemelha a problemática que perpassa a 1Jo? Quais são suas características?