ARTIGOS

Interlocutor e mediador, um estilo nas práticas educomunicativas

Helena Corazza[1]

Introdução

Este texto apoia-se na experiência de formação para a comunicação a partir do espaço não formal, mediante pesquisa realizada no SEPAC, que capacitando agentes pastorais e culturais observou que, quem ali procura a capacitação é um mediador do espaço pastoral, portanto uma liderança potencial que multiplica o conhecimento e a atuação na sociedade, o que foi confirmado na continuidade dos trabalhos e na atuação nos espaços de intervenção tanto na Pastoral da comunicação em jornais, rádios, televisão, internet quanto na atuação no espaço educativo. Ao adotar uma metodologia que tem em conta o sujeito e os processos de comunicação, práticas a partir do ser e do atuar, propõe-se a Educomunicação como um estilo de vida.

O sujeito mediador cultural

A formação educomunicativa no contexto da comunicação e cultura envolve o conhecimento e a reflexão das áreas da comunicação e da educação, pois vê o ser humano como sujeito situado numa teia de relações onde a comunicação se torna cultura cotidiana, não só pelo acesso às tecnologias mas pelo modo de se relacionar, produzir e distribuir as informações. Fazendo parte da vida cotidiana e dos espaços educacionais, a comunicação possui muitas formas de se manifestar e de ser entendida, desde o aspecto técnico e funcional ao de cultura em que os sujeitos apropriam-se, reinterpretam, recriam e produzem novos sentidos.

Conforme Martín-Barbero, o conceito de mediação sinaliza um deslocamento na interpretação da comunicação: “o eixo do debate deve deslocar-se dos meios para as mediações, isto é, para as articulações entre práticas de comunicação e movimentos sociais, para as diferentes temporalidades e para a pluralidade das matrizes culturais” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 258).

Um dos desafios se coloca no processo relacional, na interação do ser humano com o contexto onde vive, por isso, reconhecendo-se comunicação por natureza, ele precisa aprender a ser. O que se é por natureza, precisa ser assimilado e aperfeiçoado cada dia de novo, na atitude de aprendiz permanente, cultivando o que se é, mas também aprendendo a conviver. Esta é uma busca contínua exigida pelo ato de comunicar, o que requer capacidade e abertura constantes para viver a comunicação e exercitá-la, indo ao encontro do outro, em atitude dialógica, conforme Freire:

o que caracteriza a comunicação enquanto este comunicar comunicando-se é que ela é diálogo, assim como o diálogo é comunicativo.[…] a educação é comunicação, é diálogo, na medida em que não é transferência de saber, mas encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados (FREIRE, 1983,  p. 66ss).

O conceito de mediação cultural traz consigo o mediador que atua no campo educacional e pastoral. O sujeito é uma categoria que se destaca na comunicação vista e produzida a partir do processo relacional e de sua inserção na sociedade, sendo ele compreendido como sujeito social que se constrói, interage e, ao mesmo tempo, é construtor de significado e ação social. São muitas as interpretações ao redor do conceito do sujeito, que assume diferentes facetas de acordo com os contextos socioculturais e diferentes temporalidades.

Tendo em conta os diferentes conceitos e situações em que se encontra o sujeito, abordado por diferentes autores, em Touraine temos que

o ator não é aquele que age em conformidade com o lugar que ocupa na organização social, mas aquele que modifica o meio ambiente e sobretudo social no qual está colocado, modificando a visão do trabalho, as formas de decisão, as relações de dominação ou as orientações culturais (TOURAINE, 1994, p. 220).  

A questão do sujeito que pensa, produz, negocia sentidos e intervém caracterizado aqui como “intelectual orgânico”, apropriando-nos do conceito de Gramsci.  Ao trabalhar a educação para a comunicação no processo relacional, a partir da cultura, tendo em conta a visão antropológica, a reflexão e a produção em chave comunicacional, para o SEPAC  o pensar e o atuar estão embasados em valores como a ética, a participação, o diálogo, trabalhando o potencial das pessoas em vista de seu crescimento pessoal e social. Ao capacitar para o conhecimento integrado entre teoria e prática, o que confere ao interlocutor a competência na reflexão para busca de estratégias de ação e intervenção na sociedade.

Novos modos de narrar pelas linguagens

A Educomunicação na formação pastoral é trabalhada no contexto das mediações culturais em que a tecnologia possibilita novas linguagens e novos hábitos cotidianos no acesso ao conhecimento, que desafiam o campo pastoral. A hegemonia do livro e da mídia impressa durante séculos, orientada por uma lógica linear, agora convive com outras linguagens mediadas pelas tecnologias audiovisuais e digitais na lógica não linear.

A mudança nos modos de narrar, na cultura contemporânea, faz parte das linguagens e saberes marcados pela entrada de novos códigos e combinações, que criam sentidos, ampliando os modos de perceber, de sentir e de pensar, que articulam a lógica e a intuição. As expressões plurais e sensoriais na linguagem oral, escrita, sonora, imagética, digital, de forma linear ou não linear, são maneiras de conhecer e narrar o mundo com janelas simultâneas, potencializadas pelas conexões da comunicação mediadas pelas tecnologias.

Para pensar, de maneira ampliada, a circulação da linguagem verbal nos meios de comunicação, é necessário levar em conta os sistemas complexos de produção dos sentidos, os fluxos, cruzamentos, interpenetrações, interposições, ajustes e afastamentos de códigos e sistemas de linguagem que elaboram as significações nos ambientes midiáticos. Da mesma forma, palavras, sons, imagem, música, ordenados em uma nova totalidade significativa, criam novos significados e linguagens. São combinações nesse mecanismo sinergético, “toda ela movida por migrações, passagens e cruzamentos entre suportes, dispositivos técnicos, recursos digitais, linguagens” (CITELLI, 2006, p. 137).

As mudanças nas linguagens não são apenas uma dimensão constitutiva da vida social, nem dizem respeito somente aos meios de comunicação, mas têm a ver com uma forma determinada de a própria sociedade ser e se configurar, vinculada à revolução tecnológica da modernidade que elevou a técnica como parte do progresso e da felicidade do homem. Por esta nova configuração, ela provoca uma reelaboração do caráter simbólico da vida social enquanto tal, ligada à pretensão moderna da realização tecnológica dos desejos humanos.

A sensorialidade envolve todos os sentidos, desde o pensar a produção de um texto escrito, sonoro, imagético ou musical, como as percepções pela vista, ouvido, tato parecendo estar em contradição com o pensamento e a educação que chame e desperte a consciência, caracterizadas como uma nova era do sensível que questiona a postura da elite intelectual que nos faz insensíveis aos desafios culturais que a mídia coloca a esta geração que se diverte com games, que vê cinema na televisão.

As novas linguagens, criadas pelas possibilidades e combinações com as tecnologias digitais que incorporam a velocidade e um processo de comunicação interativo, são um desafio para a comunicação e para a pastoral. Há uma tomada de consciência da necessidade de uma revisão de métodos de comunicação diante dessas mudanças, sobretudo com a cultura digital. No sentido de sua aplicação na evangelização, incentiva-se uma cultura participativa e colaborativa, sobretudo com as redes sociais. Isso requer uma revisão dos métodos pastorais e educativos, assim como o vem exigindo nos sistemas de ensino, nos processos políticos e na reorganização da sociedade em geral.   

Valores da Educomunicação como estilo de vida

Entre os valores da Educomunicação, construídos pelo SEPAC, está a  metodologia que adota um perfil teórico-prático em que o ser humano é sujeito do processo comunicacional. Essa metodologia se alinha com os princípios e valores assumidos pela instituição em sua missão de “capacitar agentes culturais e sociais na área da comunicação, qualificando a atuação profissional, cultural e pastoral, na totalidade do ser humano”.  A competência neste campo é uma exigência que aliada ao compromisso com os valores da cidadania, torna mais eficaz a comunicação. Essa metodologia tem como eixo central a comunicação como processo integrado que inclui a reflexão, a ação e o relacionar-se de forma articulada. Trata-se de uma formação para ser e atuar, focando o ser humano como sujeito em sua interação e convivência na sociedade, com as tecnologias e ambiente comunicativo e o seu entorno.

Assim, insere-se a pessoa em sua formação humana, cultural, espiritual e intervindo na sociedade, em função de uma comunicação democrática e participativa. Nesta visão, evidenciam-se três eixos que tratamos em separado apenas por uma questão didática, mas que acontecem de forma integrada: pensar, produzir e conviver.  O pensar envolve a reflexão teórica, o conhecimento disponível com distanciamento crítico, conforme as teorias atuais de análise da comunicação, a recepção e análise de produtos midiáticos; o produzir envolve o conhecimento das diferentes linguagens e a habilidade do planejamento e da criação de produções que possam circular na sociedade; o conviver envolve o ser humano como sujeito do processo comunicativo, o ambiente, a comunicação visual, o acolhimento das pessoas com afeto, a infraestrutura que possibilite o exercício e a experiência da comunicação.

A metodologia que abarca a reflexão, a prática e a convivência, poderá contribuir para que os comunicadores do campo pastoral para estabelecer coerência entre o pensar, o produzir e o conviver, partes do processo participativo e dialógico, das diferentes linguagens. Essas características educomunicativas podem ser um diferencial em seus ambientes de atuação. 

O resultado da apropriação do conhecimento se dá na interface da comunicação com outras áreas, no campo pastoral, educacional e na análise dos produtos da mídia. A apropriação do conhecimento nas interfaces é devida à metodologia teórico-prática em que se articulam o pensar e o produzir, favorecendo um novo modo de conceber a comunicação e, ao mesmo tempo, tendo um ambiente favorável de convivência em que se discute e realiza o processo de produção e as linguagens, em diferentes expressões da mídia para um resultado coletivo.

As práticas de intervenção se destacam nas análises, sendo um número significativo com evidências educomunicativas com crianças que participam da produção e apresentação de programas em rádio católica; estudos sobre rádios comunitárias, que tem em sua gênese o processo participativo e de como em alguns lugares isso se torna mais evidente; estudos também de reuniões comunitárias para refletir sobre a Bíblia e nesses encontros mantém o processo de participação e de compromisso com a transformação da realidade.

Continua o grande desafio de ser e atuar, educando para os valores do diálogo, da participação e do compromisso com a transformação da realidade, numa sociedade em que prevalecem os valores do mercado.

Permanece também um desafio quanto à reeducação para o processo participativo e dialógico no contexto da cultura digital, um dos valores da comunicação popular e alternativa que a Educomunicação assume em sua gênese. A interatividade própria da cultura digital, se expressa tantas vezes também como percebido nas análises, sem a dimensão coletiva, da comunidade e da colaboração, prevalecendo a auto-referência, uma característica visível e crescente.

Na experiência de trabalhar a formação para a comunicação com lideranças das pastorais, em sua maioria de adultos e jovens, portadores de uma formação e de projetos relativos à comunicação para suas comunidades e instituições e considerando o caminho explicitado, pode-se afirmar que a Educomunicação é ou deveria ser um estilo de vida. A partir do momento em que a pessoa assume a comunicação como mediação cultural na reflexão, nas práticas e na convivência, ela se torna um modo de ser, de pensar e de atuar em seu cotidiano, seja na postura pessoal, nos ambientes ou na atuação junto à mídia.

REFERÊNCIAS

CITELLI, Adilson. Palavras, meios de comunicação e educação. São Paulo: Cortez, 2006.

CORAZZA, Helena. Educomunicação: caminhos e perspectivas na formação pastoral. A experiência do Serviço à Pastoral da Comunicação (SEPAC).

FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983, 6ª. Ed.

MARTIN-BARBERO, Jesus. De los medios a las mediaciones. Comunicación, cultura y hegemonia. Barcelona: Gilli, 1987.

[1]. Helena Corazza é jornalista, com licenciatura em Letras, doutora e mestra pela ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da USP); Diretora e docente no SEPAC (Serviço à Pastoral da Comunicação); coordenadora do curso de pós-graduação lato sensu “Cultura e Meios de Comunicação, uma abordagem teórico-prática” do SEPAC em convênio com a PUC-SP (COGEAE); docente no Instituto Teológico São Paulo (ITESP). Autora dos livros: Comunicação e Relações de gênero em prática Radiofônicas; Pastoral da comunicação. Diálogo entre fé e cultura; Acolher é comunicar; A comunicação nas celebrações litúrgicas; Educomunicação.Formação pastoral na cultura digital. Presidente da SIGNIS Brasil (2010-2016). Assessora instituições e comunidades na área da formação para a Educomunicação e pastoral. helena.corazza@paulinas.com.br; helen.corazza@gmail.com