Julho de 2018

A morte prematura do justo (Sb 4,7-20)

Prossigamos em nosso propósito para este ano, seguindo o Livro da Sabedoria que, como estamos constando, nos traz temas que nos faz refletir profundamente sobre a vida e como vivê-la intensamente, priorizando o que é essencial. No mês passado, nossa reflexão sobre Sb 3,1-12 consistiu no olhar sobre o aparente fracasso do justo, como vítima do sofrimento, das penas, dos castigos, da morte e o triunfo dos ímpios. Nas Dicas Bíblicas deste mês, com Sb 4,7-20, persistiremos um pouco mais sobre o tema da morte, mas agora com uma questão ainda mais instigante: como compreender a morte prematura do justo?

A morte em si é sempre um enigma, porém a morte prematura nos causa espanto, perplexidade e sentimos nossa impotência diante dessa realidade humana. Ao ler Sb 4,7-20, percebemos que questionar a morte prematura dos justos pelos ímpios era uma tentativa de silenciá-los. Aliás, este é um contexto também presente em nossos dias, na morte de tantas pessoas por intolerância religiosa, por interesses políticos e econômicos, e no martírio contínuo de homens e mulheres que lutam pela justiça.

Por outro lado, nos apresenta a realidade de pessoas que por suas convicções, por sua experiência do amor de Deus são capazes de serem fiéis aos seus propósitos, mesmo diante de momentos difíceis e da possibilidade de serem mortas. Algo que também aconteceu com Jesus ao ser fiel ao projeto do Pai.

A passagem escolhida para este mês, Sb 4,7-20, nos apresenta um paradoxo: como explicar a morte prematura do justo, dado que havia a convicção, baseada nas promessas divinas, de que o justo teria vida longa (Dt 4,40; 5,16; Sl 91,16; Sb 3,16-18)? Diante desta realidade, coube aos sábios afirmarem que: “ainda que morra prematuramente, o justo encontrará descanso” (4,7), pois estão em Deus e com Deus. Isto não acontece com os ímpios (Sb 3,18). Acompanhemos mais detidamente esta afirmação.

Nos vv. 8-9, o autor declara que mesmo uma longa vida não garante a paz e o descanso após a morte. Isto porque é essencial levar em conta se esta vida foi ou não pautada conforme a justiça. Deste modo, a velhice venerável não está baseada na quantidade de anos que essa pessoa viveu, mas sim em sua capacidade em discernir e decidir sabiamente, vivendo de forma justa e sensata em todas as circunstâncias, sobretudo, diante de realidades adversas. Viver, portanto, conforme a vontade de Deus (v. 10).

Um aspecto que nos chama a atenção é que para o autor não há diferença entre “ser justo” (v. 7), “ser eleito” e ser “santo” (v. 15). De fato praticar a justiça é percorrer o caminho de santidade. Ao afirmar que o justo é amado por Deus (v. 10), o redator do Livro da Sabedoria, inspirado na figura de Henoc (Gn 5,22-24; Eclo 44,6) e de Elias (1Rs 2,1-13), defende que, por amor, Deus transfere o justo de lugar, arrebatando-o, tirando-o do meio dos pecadores. Dessa forma ele responde à pergunta que também passa muitas vezes em nossa mente: Se Deus ama o justo, por que permite sua morte prematura? O sábio responde alegando que Deus não somente ama o justo, mas o protege e age em seu favor, livrando-o de toda a malícia, das injustiças e poupando-o de toda maldade.

Deste modo, a morte do justo torna-se o critério de julgamento da conduta dos ímpios, que permanecem vivos, pois, ao matarem o justo, optam pela própria condenação.  De fato, quando os injustos morrerem “se tornarão cadáveres sem honra”, ou seja, não serão estimados pelos vivos e serão ainda desprezados pelos mortos (v. 18). Não terão nenhum direito de defesa diante do julgamento divino (v. 19) e serão completamente eliminados. Por fim, é apresentada a pior das condenações: não serão mais lembrados e toda a injustiça que foi praticada contra os justos se reverterá contra o próprio ímpio (v. 20).

Assim, ao refletir sobre a morte prematura dos justos, o autor nos faz avaliar sobre a qualidade de nosso modo de viver, de nossas opções, do sentido que damos a nossa vida. Este aspecto nos remete a importância de nosso ser batizado, a missão que nos foi confiada de anunciar o Reino de Deus e de sermos capazes de doar a própria vida.

Pausa para refletir

  1. Ao refletir sobre a morte prematura do justo, nós convidados você a fazer memória de tantos homens e mulheres que doaram a sua vida por viverem a justiça, por anunciarem os valores evangélicos ou por serem fiéis ao seguimento de Jesus Cristo e a criar algumas iniciativas para que essas pessoas sejam recordadas e que as causas pelas quais elas deram a vida não sejam esquecidas.
  2. Como ler Sb 4,7-16 à luz da trajetória histórica de Jesus e da fé em Cristo?
  3. Como Sb 4,17-20 pode nos ajudar a reavaliar o nosso modo de viver, de pensar e as opções que fazemos no dia a dia?

Zuleica Aparecida Silvano, fsp