Julho de 2019

Anticristo: o falso profeta de todos os tempos

Aos poucos vamos caminhando ano a dentro, folheando com atenção e zelo a Primeira Carta de João, percebemos que nossa carta, o livro em estudo do Mês da Bíblia 2019, foi escrita num contexto de ruptura e divisão interna entre os membros da comunidade joanina. Esse conflito partia de um grupo que deixou de ser fiel aos conteúdos recebidos, influenciados por pensamentos filosóficos da época e por outras concepções teológicas. Deparamo-nos então diante de conflitos de pensamentos que se desdobravam em ações concretas, contrárias aos ensinamentos de Jesus, e que colocavam em risco a estabilidade e a identidade da comunidade. Fato que, diga-se de passagem, muito se assemelha à nossa realidade.

Voltemos à nossa Carta. Perpassamos por perícopes nas quais o autor procura, com firmeza e assertividade, rebater às atitudes propagadas pelo grupo adversário. Com a autoridade de quem, por meio de sua experiência cristã, viu, ouviu e tocou Jesus, verbo manifesto em Vida (1Jo 1,1-4), o autor reafirma a necessidade de andar na luz, de estar em comunhão com o Pai e o Filho, (1Jo 1,5-10) de observar os mandamentos, de vencer o “mundo”(1Jo 2,1-17). Isto para contrapor às trevas, elas representam os pecados, o descaso com os irmãos, que ameaçavam à comunidade.

Por que o autor chamava a atenção para a vigilância ao pecado, a prática do amor ao próximo, ao zelo em não aderir à concupiscência? Por que a exortação para estar em comunhão com o Pai e o Filho? Por que toda esta preocupação? Incomodava ao autor a postura daquele grupo que havia rompido com a comunidade. Pensava que bastava ser batizado para se considerar pleno em Deus, para estar em comunhão com o Pai e, como consequência, livre do pecado. Com este olhar, vamos aprofundar 1Jo 2,18-28, nestas nossas “Dicas Bíblicas”.

Podemos nos perguntar: onde estava o fundamento desse pensar e agir? Pois bem! Este grupo rebelde justificava essa ruptura, a partir da negação de que Jesus fosse o Cristo. E por isso foram denominados anticristos (1Jo 2,22-23).

O anticristo representa, portanto, aquele que nega ser Jesus o Cristo. Aquele que chegou a conhecer o Cristo, por meio do testemunho dos apóstolos, mas que não permaneceu fiel ao aprendizado.

Sendo assim, o anticristo não é um indivíduo, mas uma postura coletiva, isto o tornava mais difícil de ser identificado. Ele estava presente na comunidade, mas como falso profeta. E o mais sério! Para se fazer convincente, argumentava dizendo possuir a unção que vem do Espírito pelo batismo, procurando, assim, atrair e persuadir os fiéis. Dizia-se, desse modo, inspirado. Mas o autor enfatiza: eles saíram de dentro da comunidade, mas não eram da comunidade, porque não souberam permanecer nela. E chama atenção dos fiéis para o fato de que aquele que foi batizado não está imune à tentação de romper com a comunidade (1Jo 2,19). E mais!  Aponta para o contraditório: como ser movido pelo Espírito e negar Jesus, o Filho de Deus (1Jo 2,22)? Definitivamente, eles não estavam em comunhão com Deus (1Jo 2,23).

Por isso a sua veemência ao exortar os fiéis a não darem ouvidos aos que negavam Jesus, o Cristo. Os anticristos não falavam segundo o Espírito. A presença e a ação do Espírito estavam presentes nos fiéis (1Jo 2,20) que conservavam a unção d´Ele recebida e que continuava a iluminá-los e ensiná-los, independente de quem quisesse conduzi-los (1Jo 2,21). Por isso deveriam conservar o aprendido e permanecer no que ouviram desde o princípio (2,24). Permanecer na certeza de que a unção recebida pelo batismo permanecia neles (2,27) e, dessa forma, permaneciam em Cristo e eram chamados a amar o próximo.

E conclui: a purificação dos pecados, a observância dos mandamentos e a fidelidade ao Espírito, que nos conduzem a Jesus o Cristo, o Filho de Deus, são condições de vida eterna.

Assim, uma vez mais, contrapondo ao anticristo que pensava passar da morte para a vida eterna sem julgamento, o autor lembra que haverá uma nova vinda de Jesus e aquele que nele permanecer se sentirá seguro e confiante (1Jo 2,28). E o autor nos leva a refletir: a existência do anticristo não se limitava à sua comunidade. Anticristos viriam em tempos futuros para anunciar a chegada da última hora (2,18). E complementa: permanecendo em Cristo manteremos nossa serenidade! E desfrutaremos da Vida Eterna (2,27).

Pausa para reflexão

  1. O anticristo é aquele que nega ser Jesus o Cristo e isso também transparece em sua atitude e em sua ação. Em nossa sociedade quem são os anticristos? Reflita e comente.
  2. O Papa Francisco em sua exortação Gaudete et Exsultate, sobre o chamado à santidade no mundo atual, diz: “ Deixa que a graça do teu batismo frutifique em um caminho de santidade… escolhe Deus sem cessar. Não desanimes, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida” (n. 15). Reflita sobre esta afirmação à luz de 1Jo 2,18-28.