Julho de 2020

LEIS LITÚRGICAS

O tema das leis litúrgicas no livro do Deuteronômio é bem extenso e não nos permite comentá-lo todo. Gostaríamos, aqui, ao menos de despertar no leitor o desejo de ir ao texto bíblico e, como peregrino (a), ouvir o que Deus ordena ao seu povo como expressão de seu amor zeloso para com seus eleitos.

Para o homem e a mulher contemporâneos, que veem a lei mais em seu aspecto jurídico ou normativo, falar das leis litúrgicas na Bíblia poderia soar como uma espécie de anacronismo; e o é, se visto apenas como normas. Mas, em se tratando da narrativa de uma experiência de Deus vivida por essas pessoas que nos precederam na fé, as leis litúrgicas, que nos são apresentadas no livro do Deuteronômio, são indicativos da relação de fidelidade ao Deus da Aliança. Assim, é sinal de mais vida e liberdade.

Essa fidelidade se dá por meio do cumprimento das leis, que orientam o povo na sua relação com Deus, com a sociedade e com o modo de lidar com a justiça e o direito. As leis litúrgicas não eram simples normas para manter o povo preso a seu Deus; ao contrário, eram leis que regiam as regras de convivência de um povo que caminhava no deserto, habitava em tendas e precisava viver em harmonia. Deus nunca privou o seu povo da liberdade; Ele os livrou da escravidão e os conduziu para a liberdade, sempre oferecendo a oportunidade de escolha.

As leis litúrgicas estão no livro do Deuteronômio 12,1–16,17. Pegue sua Bíblia e confira. Leia sem medo e sem julgamento. Lembre-se de que se trata de um texto escrito antes de Cristo, um tempo em que a sociedade era bem diferente de hoje; mas que, por se tratar da Sagrada Escritura, tem sempre algo a nos dizer, introduzindo-nos neste grande mistério do Deus-amor.

As leis litúrgicas que nos são apresentadas no Deuteronômio têm como meta assegurar a relação entre Deus e o povo, garantindo, assim, que não haverá outro deus. Os deuses não teriam lugar dentro da comunidade dos eleitos. Isso faz com que haja uma estreita relação entre a liturgia celebrada e o cotidiano. A relação com Deus está intrinsicamente ligada à vida familiar, social e religiosa.

No capítulo 12 é apresentado o tema da unidade do santuário. Isso está explícito quando o texto diz que se devem derrubar os altares e templos dedicados a outros deuses, queimar as estátuas para que desapareçam, porque o próprio Deus indicará o lugar da oração e estabelecerá o modo de celebrar o culto, e toda a nação é convocada a se apresentar diante de Deus com seus dízimos e ofertas para o sacrifício e os holocaustos.

Nas prescrições para a celebração, ninguém deveria ficar de fora. Escravos e livres, órfãos, viúvas e estrangeiros: todos devem participar. Isto deveria se dar num clima de paz e comunhão, o que tornava a celebração uma grande ação de graças.

Já no capítulo 13, veremos como proceder no caso de surgir, no meio do povo, os falsos profetas, ou seja, pessoas que incitam a divisão e a idolatria, induzindo o povo a adorar deuses e a abandonar o Deus de Israel. Mesmo que fosse da própria família, a instrução é a de que esse “deus” fosse eliminado para erradicar o mal. Isso porque havia a concepção de que a terra era sagrada e na Terra Prometida a idolatria é algo proibido. A idolatria não deve ser entendida como adoração de imagens, mas era proibida, porque os outros deuses e religiões, que existiam naquele tempo, diferente do Deus de Israel, não exigia a prática da justiça e do direito, não exigia um comportamento ético.

No capítulo 14, o destaque vai para as questões rituais, alimentares e do dízimo. Como pode ser visto logo no em Dt 14,1, o pedido é para que não se imitem os costumes dos gentios, que raspavam a cabeça em honra de um morto. Também deveriam comer somente animais que ruminam e têm cascos fendidos, pois eram considerados puros. Quanto aos outros, deveriam abster-se. Para o dízimo há uma prescrição bem interessante: quando a pessoa estivesse longe do lugar onde se deveria oferecê-lo, e na impossibilidade de entregar sua oferta, a cada três anos este deveria juntar o dinheiro correspondente, comprar mantimentos e alimentar o levita, o migrante, o órfão e a viúva. Agindo assim, receberá as bençãos de Deus.

No capítulo 15, diante da bondade de Deus, os israelitas deveriam retribuir com generosidade. Isto é, a gratidão a Deus pelo dom da terra, dos frutos colhidos e das bençãos recebidas se expressariam no gesto de que, a cada sete anos, a dívida dos pobres deveria ser perdoada e os escravos deveriam ser libertados, o chamado ano sabático. Sabemos que isso não eliminava a pobreza e a escravidão, mas minimizava a dor e o sofrimento dos pobres (Dt 15,11).

Em Dt 16,1-17, encontram-se as leis para a realização das festas judaicas.  Aqui são mencionadas as três festas de peregrinação: Páscoa, Semanas e Tendas. Essas festas que eram feitas peregrinando até Jerusalém, estão estreitamente ligadas à experiência de Deus que o povo fez. As festas judaicas têm como finalidade celebrar a ação de Deus na vida de Israel: a primeira refere-se à libertação do Egito, que é a Festa da Páscoa; a segunda recorda o dom da Torá, que é a Festa das Semanas; a terceira, a Festa das Tendas, trata dos frutos da alegria da Torá. De modo sintético, poderíamos dizer que essas festas nos permitem conhecer o percurso da caminhada do povo de Deus, desde a saída do Egito até a entrada na terra prometida.

O nome “Festa das Tendas” deve-se ao fato de que os israelitas, no primeiro dia, recolhiam ramos de árvores como salgueiros, palmeiras e outras árvores frondosas para construir cabanas onde se abrigavam durante a celebração. Esse fato quer recordar o tempo em que o povo habitava em tendas e vivia errante no deserto rumo à terra prometida.

Enfim, o que podemos aprender nestes versículos do livro do Deuteronômio é que, na experiência de Deus feita por Israel, a história humana e a divina estão estreitamente ligadas. Já não é suficiente celebrar a colheita, mas torna-se necessário louvar ao Senhor por tudo o que Ele fez. O gesto simbólico de construir cabanas para fazer memória da vida errante não fala apenas de uma experiência do passado, nem tampouco esvazia o sentido da celebração. Nesse gesto, o povo recorda a presença de Deus no meio deles de modo atemporal. Ao olhar o passado, o povo louva a Deus pela proteção recebida e, ao mesmo tempo, acredita que Ele continuará a protegê-los no futuro. Assim, atualiza a sua experiência com Deus para as novas gerações.

Para refletir

  1. Em que o livro do Deuteronômio ilumina sua vida para uma vivência cristã integrada? De que modo a liturgia transforma a sua vida?
  2. Quais são as motivações que levam você a ser um dizimista: desencargo de consciência ou para partilhar os bens recebidos com os mais necessitados?
  3. Nasua opinião, as leis litúrgicas do livro do Deuteronômio podem contribuir para uma sociedade mais justa e fraterna?

                                                                      Maria Eliene Pereira de Oliveira

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