Junho de 2018

A realidade dos justos –  Sb 3,1-12

Uma dica a mais para estes nossos encontros mensais em que nos propusemos, neste ano, visitar o Livro da Sabedoria. Estamos a ouvir a voz do seu autor, uma voz profética, alertando aos judeus da diáspora da ameaça em se deixarem seduzir pela cultura helenista, submissos ao domínio opressor romano. Denunciando a injustiça, através do ímpio, anuncia a Sabedoria, por meio do justo, amigo da vida.

Como vimos em nossa dica do mês passado, os ímpios, ao se declararem amigos da morte, limitavam-se aos prazeres, deixando-se conduzir por suas próprias leis (Sb 2,1-9), numa vida sem sentido. No entanto, mostravam-se frágeis e inseguros, ao perseguirem e desejarem eliminar aquele que os condenavam com sua simples presença: o justo (Sb 2,10-20).

O texto Sb 3,1-12, para nossa leitura neste mês, nos leva a refletir sobre a vida e o destino de cada um deles: justos (vv. 1-9) e ímpios (vv. 10-12). Como o autor nos conduz a esta reflexão? A partir do questionamento dos ímpios que, irônicos, perguntavam: De que serve ao justo praticar a justiça, ser temente a Deus, se continuam vítimas da morte, do sofrimento, das penas e castigos? Observe que, com esta indagação, eles desafiavam o justo na sua fé em Deus, dando destaque a uma questão tão permanente na existência humana: o fracasso dos justos e o triunfo dos ímpios. Isto porque eles se deixavam levar pela aparência, enquanto que os justos tinham o olhar fixo naquilo que é o essencial: a vivência da justiça.

Porém, o olhar insensato do ímpio preso às aparências (3,2a), vê no sofrimento do justo o seu fracasso e a inutilidade da justiça (3,2-3a).

Mas, de que forma o texto Sb 3,1-12 nos oferece uma resposta? O autor procura nos mostrar o que é fundamental, que se esconde no avesso deste aparente fracasso. Acompanhe conosco!

A morte, que para o ímpio significa a partida para o vazio (3,2b), vista como uma luz de vida que se apaga, tem, para o justo, em seu horizonte, uma luz de esperança que emana em sua direção, refletindo-se na certeza de sua imortalidade (3,4b).

O castigo, que para ímpio significa punição, oferece ao justo a oportunidade de vir a “des-cobrir” a paz (3,5). Paz que se faz plenitude de vida, felicidade, “shalom”, o bem-estar da vida quotidiana (3,3b).

Também o sofrimento, assim como o ouro no crisol, permite que nos transformemos em uma entrega total e sem reserva a Deus (3,5-6). Ele não é em vão, visto que nos faz amadurecer na prática das virtudes (3,5b.6a), pois ao viver as perdas, a doença e a tempestade, nos permite tomar posse do conhecimento de nós mesmo, de Deus e de sua criação.

As aparentes penas (3,4a), sofrimentos (3,5a) e morte (3,2-3a) levam os justos a compreenderem a verdade (3,9), dando-lhes autoridade e responsabilidade para governar nações para o Senhor (3,8). Podemos constatar então que, por trás da aparência de justos fracassados e miseráveis, deparamos com os eleitos, não porque aceitaram o sofrimento passivamente, mas porque, cientes da graça e misericórdia divinas, fizeram destas experiências vividas fonte de vida e imortalidade.

Portanto, a insensatez dos ímpios demonstrada no desprezo pela Sabedoria cultivada pelos justos, na fé na existência de Deus, na justiça das suas ações e em sua imortalidade, impede que contemplem a realidade para além das aparências. De fato, aqueles que se deixam enganar pelas aparências caem no vazio da existência humana, optando pelo caos à plenitude da vida, pelas trevas à luz, pela morte à vida, pela esperança vazia (3,11b) à esperança plena (4b). E como não somos capazes de oferecer aquilo que não possuímos, os ímpios estão fadados a uma descendência infeliz (3,11).

Quanto aos justos, com coragem e firmeza, se sentem fortalecidos na certeza de que “a vida dos justos está nas mãos de Deus e nenhum tormento os tocará” (3,1). Isso porque a fé na vida eterna ilumina o sentido da existência de cada justo e o impulsiona a construir na história o sonho de Deus para a humanidade.

Pausa para refletir

 1. O Livro da Sabedoria foi escrito num contexto no qual o povo se perguntava se valia a pena ser justo. Hoje também encontramos várias pessoas que, diante da realidade de crise e corrupção, trazem a mesma pergunta. Como respondê-la à luz de nossa experiência de Jesus Cristo?

2. A partir do olhar insensato do ímpio somos levados a refletir sobre a situação do justo. Reflita e comente esta afirmação fazendo um paralelo entre Sb 3,1-12 e Mt 5,10-12: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” e “Felizes sois, quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disseram todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas que vieram antes de vós”.

3. Papa Francisco em seu twitter (@Pontifex_pt em 17/05/2018) nos diz: “O amor com que Deus nos ama derrota toda forma de solidão e de abandono”. Como interpretar esta mensagem à luz de Sb 3,1?