Maio de 2018

Entre o ímpio e o justo, a justiça de Deus – Sb 1,16–2,24

Oxalá continuemos desejosos em adentrar mais e mais no Livro da Sabedoria. Demos início com Sb 1,1-15. Aí o autor nos apresentou três temas principais (justiça, sabedoria e imortalidade) e fomos convocados a amar a justiça (1,1), porque ela é imortal (1,15). Diante deste tema somos interpelados por meio de diversas perguntas: como vivenciar a justiça? Onde encontrá-la? Que caminho seguir para compreendê-la um pouco mais? Sb1,16-2,24 nos oferece respostas para estas perguntas. Mas … de que forma este texto nos conduz a estas respostas? Apontando para o avesso da justiça: a injustiça. Para isto, o autor nos apresenta àquele que pratica esta injustiça: o ímpio. A quem se refere o autor? Em seu contexto social, o autor refere-se àqueles que viviam na Alexandria, seguidores e simpatizantes da filosofia grega propagada na época. Mas… como é visto o ímpio? O ímpio é aquele que escolhe compactuar com a morte, não a morte biológica, mas a morte que significa perdição. Considerando-a amiga e por amá-la, a propaga ao seu redor (1,16).

Os ímpios, imbuídos de uma filosofia voltada para uma vida essencialmente material e sem esperanças pós-existência, são apresentados em um longo discurso (2,1b-20) na qual podemos perceber como pensam e agem. Limitados à vida material e biológica, consideram a vida fruto do acaso, triste e passageira, sendo incerta, finita e desprovida de sentido (2,1-5). O que existe é apenas o agora, e nada mais. Por isso, traduzem como único sentido da vida o desfrute dos prazeres, que se tornam bem supremo e fim último de sua existência (2,6-9). Para eles, torna-se inquestionável a realização de todos os seus desejos, e impõem sua autoridade para fazer a própria lei. Assim, formulam sua norma de vida e a comunicam, sem escrúpulos. De fato, propagam a lei do mais forte, perpassada pela opressão do justo pobre, pelo desrespeito à viúva, ao ancião, ao fraco (2,10-11). O ímpio é, portanto, aquele que trama contra o próximo, e agindo desta forma peca também contra Deus.

Quem mais sofre as consequências das ações dos ímpios é o justo. Por quê? Porque o justo é visto como aquele que incomoda, censura suas ações, assume um comportamento diferente, questionador, oponente às suas convicções e interesses e, sobretudo, tem em sua defesa um Deus atuante e justo (2,12-20).

Paradoxalmente, na ostentação de toda sua fortaleza, os ímpios de mostram frágeis diante de um justo fortalecido. De onde vem essa força? Da convicção de que pode contar cotidianamente com a presença e providência de Deus, que ama a justiça, e ao conhecer Deus, por meio de sua fé, se reconhece como filho.

Torna-se notório, portanto, o contraste entre quem insiste e persiste na perversidade, o ímpio, e quem se reconhece como filho de Deus, o justo. O ímpio tem sua ação marcada pela violência, é amigo da morte, possuidor de uma malícia que provoca cegueira e engano (2,21), e cuja insistência na maldade contra o próximo o impede de conhecer os mistérios de Deus (2,22). O justo, ao contrário, é amigo da vida, possuidor da certeza de que Deus é justo e ama todas as suas criaturas, pois é compassivo e misericordioso.

Nestes nossos tempos de tanta intolerância, este texto também nos faz refletir sobre o fato de que não existem dois grupos separados: o dos ímpios e o dos justos, pois dependendo das nossas escolhas podemos ter atitudes de ímpios ou atitudes de justos (Sl 1). O importante é avaliar nossa caminhada, reconhecer nossos limites e trilhar sempre mais o caminho da justiça, que nos conduz a vida.

Pausa para refletir:

  1. Leia Sb 2,1b-9 e compare com o pensar de nossa sociedade nos dias atuais.
  2. Vivemos numa sociedade onde mentiras e injustiças são propagadas pelas mídias sociais. Essa é uma das denúncias do Papa Francisco ao escolher como tema para o 52º Dia Mundial das Comunicações as “fake news” (falsas notícias). Seria interessante ler a mensagem (segue o link abaixo) ou a oração elaboradas pelo Papa Francisco (transcrita) e nos perguntarmos: qual é a relação existente entre essa oração e Sb 1,16-2,24?

Oração:

Senhor, fazei de nós instrumentos da vossa paz.

Fazei-nos reconhecer o mal que se insinua numa comunicação que não cria comunhão.

Tornai-nos capazes de tirar o veneno dos nossos juízos.

Ajudai-nos a falar dos outros como de irmãos e irmãs.

Vós sois fiel e digno de confiança;

fazei que as nossas palavras sejam sementes de bem para o mundo:

onde houver rumor, fazei que pratiquemos a escuta;

onde houver confusão, fazei que inspiremos harmonia;

onde houver ambiguidade, fazei que levemos clareza;

onde houver exclusão, fazei que levemos partilha;

onde houver sensacionalismo, fazei que usemos sobriedade;

onde houver superficialidade, fazei que ponhamos interrogativos verdadeiros;

onde houver preconceitos, fazei que despertemos confiança;

onde houver agressividade, fazei que levemos respeito;

onde houver falsidade, fazei que levemos verdade. Amém.

A mensagem do Papa Francisco pode ser lida no link:

https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/papa-francesco_20180124_messaggio-comunicazioni-sociali.html