Março de 2018

Sabedoria: fonte de justiça

Sejam todos bem-vindos a mais um encontro em nossas Dicas Bíblicas que, neste ano, nos propõe refletir através do Livro da Sabedoria. Num primeiro passo, mês passado, voltamos no tempo e nos colocamos junto ao seu autor. Situamo-nos no seu contexto para uma melhor compreensão do texto, e uma leitura mais profunda e produtiva. Vimos que, apesar de apresentar estilo e influência gregas, o autor traz em sua obra o brado de um judeu crente, orgulhoso de seu Israel, desejoso em reavivar a fé em seus irmãos judeus da diáspora alexandrina, então ameaçados pela cultura helenista, e submissos a um império opressor.

Apresentados o autor e o contexto em que foi escrito, passaremos agora a observar a estrutura do Livro da Sabedoria (Sb). Qual é o nosso propósito? Oferecer-lhe subsídios para perceber a coesão entre as partes que o integram, para favorecer condições para uma maior compreensão de Sb.

Lembre-se que nosso autor é um judeu convicto, que traz em si os traços do pensamento helenista. Apesar do seu domínio sobre a “sofia” – o conhecimento especulativo dos filósofos gregos, que tem a sabedoria identificada com a erudição –, fala mais forte sua identidade judaica, e o Livro da Sabedoria se propõe a dar conhecimento do Deus dos judeus aos helenistas, de modo a fazê-los ver a superioridade da sabedoria israelita.

É assim que, com o olhar voltado para Israel, nosso autor escreve o último dos livros do Primeiro Testamento. O autor relembra que a verdadeira sabedoria brota da capacidade humana em saber discernir entre o bem e o mal. Este discernimento, que leva à prática da justiça, é imprescindível, sobretudo àquele que governa. Por isso o autor, apesar de se dirigir aos governantes, tem como real propósito levar o povo a refletir sobre a relação entre sabedoria e justiça. Mas, afinal, esta sabedoria que se traduz em justiça, o que é? Qual a sua origem? Qual a sua natureza? E sua finalidade? É preciso compreendê-la e obtê-la. Mas como? Só através da oração. E, quando de posse desta sabedoria que leva à justiça, o governante tem o dever de torná-la real, concreta a exemplo do que ocorreu com seu povo, que conduzido pela sabedoria, viveu sua história, do êxodo à libertação.

Com este pensar, o Livro da Sabedoria pode, então, ser estruturado em três partes:

Primeira parte: Sb 1,1-6,21: A sabedoria e o destino do ser humano

Nesta parte, a sabedoria é concebida como um princípio ético. A sabedoria é vista como norma de vida que conduz a pessoa para uma vivência conforme a justiça. Nesta parte, o autor dirige-se a todo ser humano e traça um paralelo entre a sabedoria, a justiça e a imortalidade.

Segunda parte: Sb 6,22-9,18: Elogio da sabedoria

Na segunda parte, o autor apresenta uma reflexão sobre a sabedoria em si: sua origem, sua natureza e finalidade, com um cunho filosófico. Dirigindo-se a um homem em especial, àquele que governa, apresenta a sabedoria como dom capaz de torná-lo justo, mas que precisa ser desejada, precisa ser pedida.

Terceira parte: Sb 10,1-19,22: A sabedoria na História de Israel

Nesta última parte, temos uma releitura do Êxodo. Deste modo, a sabedoria é vista como a fonte da justiça de Deus na história, por ser capaz de levar cada ser humano da escravidão à liberdade. Numa abordagem teológica, dirigindo-se aos governantes, mas também a cada um de nós.

Sugestão:

  1. Leia Sb 9,1-6 e compare com 1Rs 3, 7-9. Comente.
  2. Como nós compreendemos a sabedoria hoje? Como nossos governantes a compreende?
  3. Leia pausadamente Sb 6,12-21. Silencie e contemple.