Março de 2020

O PROJETO DE UMA SOCIEDADE NOVA: JUSTA E FIEL

 Como nos propusemos, em nossas Dicas deste ano de 2020, “Ano da Palavra de Deus”, faremos nossas reflexões a partir do livro do Deuteronômio, o livro escolhido pela CNBB para se estudado e aprofundado no mês da Bíblia com o lema: “Abre a tua mão para o teu irmão” (Dt 15,11).

Sabemos quão é importante, para bem compreender um texto, ter conhecimento do seu contexto de origem, de sua autoria e da data em que ele foi redigido. Nas “Dicas” de fevereiro, vimos que o nosso livro foi sendo escrito pelo menos ao longo de 350 anos (750 a.E.C a 400 a.E.C), período da monarquia unida até aos exílios, promovidos pelos assírio e pelos babilônicos, vividos pelo povo judeu. Por isso, se por um lado torna-se impossível precisar sua data e autoria; por outro, torna-se inesgotável a fonte de reflexões e aprendizado que ele nos oferece, fruto dessa intensa e diversificada experiência humana.

Certamente estamos ansiosos para ler, ouvir e saborear suas palavras! Mas não tenhamos pressa. Nestas “Dicas”, nos dedicaremos a contemplar o texto em sua totalidade. Vamos lançar um olhar abrangente sobre o nosso livro sagrado. Vamos ousar definir sua estrutura, para termos uma visão de conjunto. Essa não é uma tarefa fácil,  porque, como vimos, esse texto foi escrito a tantas mãos, num período de tempo tão extenso, com tantos olhares moldados por situações tão diversas. Mas é preciso tentar! Porque tendo em mente essa estrutura, mesmo que escolhida dentre outras tantas, certamente poderemos usufruir de forma mais proveitosa a nossa leitura. Por isso, enquanto leitores dos dias de hoje, quando nos tornamos um pouco seus autores, à medida que o lemos, refletimos e interpretamos, vamos sugerir uma das estruturas escolhidas e que possa nos auxiliar na compreensão do livro. Vamos juntos?

Vejamos! Ao longo de sua história, o povo judeu sempre teve presente a experiência do êxodo e a tomada da posse da Terra Prometida. Com esse fundamento, a mensagem maior do livro é alertar Israel para o fato de que ele só será próspero e feliz, se for fiel à Aliança. Se infiel, cairá em desgraça e acabará perdendo a Terra tão desejada e idealizada. Dessa forma, no livro, através de seus discursos, Moisés – o mediador entre o Senhor Deus e o povo, o elo entre o passado com o êxodo, e o futuro com a posse da Terra Prometida, é aquele que, com o uso da palavra, orienta as gerações futuras a compreender o que significa manter-se fiel à vontade de Deus. E é com esse olhar que optamos pela seguinte estrutura do texto do Deuteronômio:

  • Primeiro discurso de Moisés (1,1–4,43)

Neste primeiro discurso temos um retrospecto da história de Israel desde o deserto, após a saída do Egito, com a partida do Monte Horeb, até a chegada em Bet Peor, frente ao Jordão (Dt 1,1-3,29), seguido de uma exortação na qual Moisés mostra ao povo as possibilidades que lhe são oferecidas e os perigos que surgirão (Dt 4,1-43).

  • Segundo discurso de Moisés e a aliança ao Horeb (4,44–28,68)

Este segundo discurso é precedido de uma introdução, que legitima historicamente as leis, abordando sua necessidade, sua origem e sentido. As leis, que orientam a formação de uma nova comunidade, são apresentadas em Dt 5,1–26,15, sendo Dt 5,1-21, a descrição do decálogo e Dt 12,1–26,15, a prescrição das leis referentes ao culto, à política e ao âmbito social. Temos também a descrição da celebração da Aliança e são elencadas as bênçãos e maldições para aqueles que observam ou não a Lei (Dt 26,16–28,68).

  • Terceiro discurso de Moisés e a Aliança em Moab (28,69–30,20)

Neste terceiro discurso (Dt 28,69–30,20), após recordar a história do povo em Moab, Moisés reafirma a necessidade de contínua conversão e compromisso com a defesa da vida, sendo intercalado por breves discursos divinos e algumas passagens narrativas.

  • Últimas disposições e a morte de Moisés (31,1–34,12)

Nesta última parte (Dt 31,1-34-12), após uma série de intervenções, Moisés faz seu último discurso para apresentar Josué como seu legítimo sucessor. Segue o cântico de Moisés, no qual ele exalta o poder e a soberania do Deus de Israel e a sua benevolência a favor do povo, em oposição à sua infidelidade. Apesar de o povo ser julgado como infiel e rebelde, Deus não o abandona e intervirá em seu favor. Por fim, é descrita a morte de Moisés (Dt 34), precedida de uma bênção dirigida as tribos de Israel (Dt 33).

Com seus discursos, Moisés nos conduz à compreensão de que não basta a um povo receber as tradições antigas e conhecer sua história, é necessário praticá-las para mantê-las vivas e dinâmicas. E para tal, com suas palavras, apresenta os fundamentos para que aqueles que não viveram essa experiência continuem a escrever a história.

Assim, nosso livro, o Deuteronômio, procura transmitir um projeto de sociedade nova, baseada na fraternidade entre as pessoas e na partilha de tudo o que Deus concedeu a todos.

 Pausa para refletir

  1. Moisés intermedeia um passado, com escravidão e êxodo, a ser respeitado e um futuro, com liberdade e responsabilidade, a ser construído. Reflita sobre esta afirmação para nossos dias e comente.
  2. No seu entendimento as leis escravizam ou libertam? Reflita.
  3. O Deuteronômio nos oferece o projeto de uma sociedade nova e fraterna. Como estamos vivendo nossa relação com Deus, com as autoridades, e com o próximo e conosco mesmos em nossa comunidade?
  4. A campanha da Fraternidade 2020 e o livro do Deuteronômio também nos colocam diante do compromisso com a construção de uma sociedade justa que priorize a vida. Leia Dt 30,15-20 e responda: Como desejo viver esse tempo da Quaresma? O que significa o apelo de Deus “Escolha, pois, a vida”, em Dt 30,19, no concreto do meu dia a dia?

 Maria do Carmo Narciso Silva e Zuleica Silvano