ARTIGOS

Mulheres cidadãs pela mídia

Ir. Helena Corazza, Paulinas*

A mídia é, hoje considerada, espaço público, onde se debatem as questões atuais. Esta espaço, que no passado era reservado apenas para o homem, está sendo progressivamente ocupado pela mulher. O tema e a importância da mulher no contexto midiático é demonstrado por inúmeras publicações, freqüentes seminários, conferências e simpósios que continuam sendo programados, tanto em nível internacional quanto nacional e latino-americano, além dos estudos acadêmicos que demonstram constante preocupação na análise em diferentes perspectivas.

Não há dúvida de que as mulheres estão em evidência, sobretudo em algumas mídias como revistas, rádios, televisão e internet. Entretanto, não obstante os avanços e conquistas na cidadania, vencendo a exclusão e mostrando sua visibilidade nas diferentes mídias, elas ainda percebem e enfrentam discriminação. Pode-se dizer que a cidadania ainda é uma conquista, que precisa acontecer, passo a passo, nos diferentes campos: social, econômico cultural e até mesmo religioso.

Resgate histórico da presença feminina

A história da entrada da mulher na esfera pública da sociedade foi um processo gradativo. Pode-se dizer que data do Século XVIII com Revolução Francesa, a busca dos direitos sociais, entre eles, os direitos da mulher. Ela amplia-se no início do século XIX na Europa e, por decorrência, no Brasil, com mulheres que refletem e buscam um lugar ao sol. Em nosso país, a história registra a presença significativa de mulheres, desde o tempo do Brasil colônia, depois as famílias burguesas, as mulheres em diferentes regiões e suas lutas, incluindo diferentes categorias, entre elas, educadoras, trabalhadoras e também pobres.

Ao lado da emancipação da mulher nos países como França, Estados Unidos e Inglaterra, na Itália também se organizam movimentos em favor da mulher. Martini cita que num congresso em Viena, em 1907, a condessa polonesa Maria Teresa Ledóchowska (1863-1922), fundadora das irmãs Missionárias de São Pedro Claver, assinala com lucidez a irreversibilidade da evolução feminina e dos problemas sociais do seu tempo. Em 1909 surge, na Itália, a Organização católica feminina e em 1911, em reunião diocesana, em Alba, norte da Itália, foram colhidas 2.046 adesões, através de 99 paróquias.

Neste contexto, o bem-aventurado Tiago Alberione, fundador das Paulinas, amadureceu a sua visão sobre a mulher e percebeu nela a profecia e o dinamismo que caracterizaria o carisma de suas instituições femininas. Ele afirma: “A mulher de hoje deve formar os homens de hoje; ir ao encontro às necessidades de hoje e servir-se dos meios de hoje”.

A imprensa era o meio mais utilizado naquele momento histórico e Alberione percebeu que este poderia ser um meio de apostolado muito eficaz. Evoluiu no seu pensamento e percebeu que os meios de comunicação como possibilidades para a pregação da Palavra de Deus, possibilidades para evangelizar: “É preciso ir até aqueles que não vêm à Igreja para que ouçam a pregação da Palavra de Deus”. Com esta finalidade nasceu, em 1915, a congregação das Irmãs Paulinas, com o carisma específico de evangelizar através da comunicação. Presentes em 50 países, Paulinas é, hoje, uma presença significativa de mulheres consagradas, apóstolas na cultura da comunicação contemporânea.

Presença das mulheres na mídia católica

Torna-se um pouco difícil de mensurar o número de mulheres atuantes nas mídias católicas: editoras, revistas, emissoras de rádio, televisões, internet e na pastoral da comunicação. São muitas as mulheres escritoras, professoras na área da comunicação, publicitárias, jornalistas, radialistas que atuam nos diferentes campos da mídia.

Um estudo realizado sobre Rádios no Brasil, mostra que, entre as cerca de 200 emissoras de Rádio que pertencem à Igreja católica, 28% das funcionárias são mulheres e 72% são homens. Esta pesquisa “Comunicação e Relações de gênero em práticas radiofônicas da Igreja católica no Brasil” mostra também que as mulheres em evidência, com cargos de diretoria e também apresentadoras não chegam a 10%.

Além do mapeamento com dados quantitativos, a pesquisa de campo trabalhou a percepção do receptor a partir de gênero. A pesquisa de campo com o ouvinte foi realizada em duas emissoras: uma cujo diretor e tradição mais pautada por padrões masculinos, sobretudo nos apresentadores, e outra cuja diretora era mulher e o programa de maior audiência, apresentado por uma mulher (Corazza, 2000).

Entre as mulheres comunicadoras e que atuam na área da comunicação é comum a consciência de que o reconhecimento vem da competência com que exercem sua profissão, conforme ilustra este depoimento: “É o conhecimento, a competência, a forma legal e ética de ética de lidar com as situações, admitir quando se está certo, quando se está errado, trabalhar com transparência, mostrando que quando a pessoa está capacitada para a função, ela passa a ter credibilidade e respaldo em todas as áreas de atuação, independente da área”.

Sendo a mídia espaço público e articuladora de processos culturais, espaço de debate dos problemas da sociedade, ela poderá favorecer a mudança de mentalidade em relação ao papel da mulher na sociedade e nas comunidades. Juntos, homens e mulheres, podem e devem unir-se para construir uma nova comunicação que se coloque, todos os dias, a serviço da vida.

A presença da mulher nas comunicações, na Igreja já faz história. Não obstante uma sociedade pautada culturalmente, a partir da ótica masculina, são muitas as mulheres que atuam nas diferentes áreas da comunicação, tanto nas leigas quanto nas religiosas.

* Ir. Helena Corazza, jornalista, mestra em Ciências da Comunicação pela ECA-USP com a dissertação “Comunicação e Relações de Gênero em práticas radiofônicas da Igreja católica no Brasil”, Publicação Paulinas, 2000. Autora de diversos livros, professora de Comunicação, presidente da RCR (Rede Católica de Rádio).