Novembro de 2018

A Sabedoria na criação (Sb 9,1-6)

Cá está novembro anunciando o fim de ano que vem chegando. Ao longo desse tempo, em nossas “Dicas Bíblicas”, percorremos, com nosso olhar reflexivo e fascinado, o livro da Sabedoria.

Tivemos a oportunidade de compreender que a verdadeira sabedoria é aquela que pode nos conduzir em nosso destino, se assim o desejarmos, ao escolhermos entre ser justo ou ímpio (Sb 1,1–6,21). Fomos convidados a contemplá-la, senti-la e concebê-la como aquela que se manifesta sendo a revelação de Deus (Sb 6,22–9,18). Adentrando em nossas reflexões, pincelamos uma de suas faces: aquela que é capaz de levar cada ser humano de sua escravidão à sua liberdade, a viver seu êxodo de cada dia (Sb 10,1–19,22).

Quer, para que sejamos capazes de discernir entre o bem e o mal e sejamos amigos da justiça; quer, para que sejamos capazes de viver nossos êxodos diários, precisamos continua e incessantemente de sabedoria. Mas como trazê-la para habitar em nós?

Poderíamos desejar possuí-la aos moldes de Adão que, mostrando-se um ser humano imaturo e infiel, optou por adquirir o saber divino por suas próprias forças, desejando-o para si, como nos relata Gn 3. Porém nosso autor nos aponta outro caminho em Sb 9,1-6, inspirado em 1Rs 3,4-15. É aquele que remete à experiência do rei Salomão, quando pediu a Deus sabedoria e inteligência para governar seu povo, com fidelidade, justiça e retidão. Ao contrário de Adão, estamos diante de um gesto de maturidade de um homem que assume ser frágil, limitado; e, que, para ser bom e justo governante, necessita de ser revestido pelo Deus do dom da Sabedoria.

Mas podemos argumentar: Salomão pedia sabedoria para governar; contudo, nós não somos governantes! E uma vez mais o autor nos surpreende. Somos, sim, criaturas fadadas a ser governantes, à medida que somos, constantemente, chamados por Deus para cuidar de sua criação (Gn 1,28).

Assim, somos convidados a fazer nossa, a oração de Sb 9,1-6 e pedir ao Pai o dom da Sabedoria, a capacidade de cultivar e deixar brotar em cada um de nós o dom da vida. Que possamos abrir nosso coração para apreender a sabedoria divina revelada em sua criação (9,1b). Sabedoria manifestada em sua obra como um princípio divino (Sl 8,4-10).

Evoquemos ao nosso Deus, Senhor de misericórdia (9,1a), e contemplativos diante de sua criação, como parte dela que somos, reconheçamos nossa vocação (9,2). De fato, fomos criados e chamados a cuidar do mundo, não como seu dono, mas como seu protetor, como o guardião de seu cultivo e preservação (Gn 2,11).  Somos convidados a participar com o Pai em seu projeto da criação, exercendo realeza sobre o cosmo, com sede de santidade, justiça e retidão (9,3).

A exemplo de 1Rs 3,4-15, busquemos no Senhor, por intermédio de nossa oração, essa sabedoria revelada em sua criação. Peçamos a sabedoria que Nele resplandece (9,4), conscientes de nossa pequenez, nossa fragilidade, nossa efemeridade, nossas limitações (9,5). Roguemos por sua sabedoria, para bem governar e administrar essa sua obra extraordinariamente fascinante. Supliquemos ao Pai pelo dom da Sabedoria, para que, por Ele iluminados sejamos capazes de imitá-lo.

E de posse desta Sabedoria, saibamos governar não só o cosmos que transpira sua revelação com justiça e serenidade; mas, também saibamos nos governar para discernir e escolher ser justo, ao invés de ímpio, e de permanecermos em atitude de saída, na busca em nossos êxodos quotidianos, em nossas vidas e em nossa comunidade.

Pausa para refletir

  1. Na Carta Encíclica “Laudato Si”, sobre o cuidado da casa comum, Papa Francisco chama nossa atenção para o fato de que não se deve entender o pedido de Deus ao homem para “dominar a terra” (Gn 1,28) como posse, como domínio sobre as criaturas e a criação, mas no sentido de “cultivar e guardar” (Gn 2,11), onde cultivar quer dizer trabalhar, lavrar e guardar significa proteger, cuidar, preservar, velar (n.67). Qual é a relação entre este argumento do Papa Francisco e Sl 9,1-6.
  2. Em Sb 9,5, o sábio afirma: “Sou servo, filho de tua serva, homem fraco e de vida breve, incapaz de entender os julgamentos e as leis” e, portanto, pede a sabedoria de Deus para poder conduzi-lo na forma de conduzir a sua vida e da sociedade. Neste mês de novembro, somos convidados a contemplar a nossa efemeridade, nossa fragilidade e também pedir a Deus que nos ajude a conduzir nossa vida com sabedoria. Que possamos dar esse espaço para fazer memória das pessoas que, com sabedoria, viveram intensamente e deixaram marcas em nossa vida e, também nos perguntar: Nós estamos conduzindo nossa vida com sabedoria?
  3. Sl 9,1-6, inspirando-nos no pedido do rei Salomão por sabedoria, ensina qual deve ser a atitude daqueles que governam, ou seja, ser justo, reto, seguir a verdadeira sabedoria que é a vontade de Deus. Diante dessa oração descrita nesse trecho do livro da Sabedoria, podemos nos perguntar: Qual tem sido nossa atitude nossa e a de nossos governantes diante do poder?