Novembro de 2019

Pecados: uns conduzem à vida, outros à morte.

Fim de ano se aproxima. E com ele vamos chegando também ao término da Primeira Carta de João, com 1Jo 5,13-21. Como pudemos constatar ao longo desta nossa caminhada, o autor tinha uma clara e objetiva motivação: alertar a comunidade sobre a atuação de um grupo dentre eles – os anticristos – que não aceitava Jesus como o Messias. Para eles, o batismo seria o bastante para serem reconhecidos como merecedores da salvação. Sem dúvida, uma preocupação pertinente e consistente para um líder de comunidade ou vários líderes, que têm o compromisso manter vivo o testemunho de Jesus Cristo.

Com uma construção literária densa, extremamente profunda, o  autor sintetiza os temas abordados ao longo da carta: o ser gerado por Deus, o pecado e o mundo, a vinda de Jesus e sua proclamação como Filho de Deus, a Vida Eterna e o conhecimento de Deus. Faz isso expondo os contraditórios: por um lado o pecado, o mundo, o Maligno e os ídolos, por outro, Jesus como o ser gerado de Deus, Deus fonte de nosso ser e o Filho proclamado como “Verdadeiro Deus e Vida Eterna” (1Jo 5,18-21).

Dirigindo-se diretamente ao seu leitor, o autor enfatiza que a crença no filho de Deus é o caminho que conduz à Vida Eterna (1Jo 5,13). É com essa consciência do acesso à Vida Eterna, e com a confiança em Deus, que cada um de nós é chamado, pelo autor, a vivenciar, uma vez mais, o exercício do amor fraterno. Como?

Confiantes em Deus, na oração temos em nós a certeza de que Ele nos ouve e que nos atende, segundo a sua vontade (1Jo 5,14-15). Olhemos, então, para o nosso irmão! Peçamos a Deus que lhe dê Vida! Numa comunidade ameaçada pelos anticristos, pedir vida para aquele irmão que comete um pecado que não conduz à morte é um ato de amor fraterno (1Jo 5,16).

Mas, como compreender esse pecado que não conduz à morte? Vejamos! O autor deixa para nossa reflexão dois tipos de pecados: os pecados mortais e aqueles que não nos conduzem à morte. É essencial nos perguntarmos: de que morte se trata?  Ele se refere à morte que leva à perda da Vida Eterna, vida revelada por Jesus, e da qual somos possuidores, todos nós que cremos nele (1Jo 5,13). Pecados mortais são, pois, aqueles que rompem a comunhão com a Vida. Pecados que não conduzem à morte podem ser vistos como as atitudes referentes às nossas limitações e fraquezas humanas; imperfeitos que somos, mas desejosos de compreendê-las e de superá-las, na busca da Vida Eterna (1Jo 5, 17).

Enfim, é conclamando a comunidade a orar pelo irmão, que o autor prossegue e conclui sua carta. Sintetiza todo o pensamento exposto ao longo do texto, na esperança de consolidar, de cristalizar em cada um(a), o testemunho vivo de Jesus.  Vamos a essa síntese?

Todo aquele que é gerado de Deus não peca, pois Deus o guarda e o Maligno não o toca (1Jo 5,18). Na expressão “ser gerado de Deus”, identificamos a justiça, o amor de Deus, na observância dos dois mandamentos: crer no valor salvífico de Jesus e praticar o amor fraterno.

Diante da constante ameaça do grupo adversário, considerando que o mundo e o Maligno representam toda a realidade hostil à vontade de Deus; o autor reafirma à sua comunidade: somos de Deus e o mundo pertence ao Maligno. E aquele que é gerado por Deus vence o mundo (1Jo 5,19). Como já foi indicado nas dicas anteriores, quando o nosso autor fala de “mundo”, provavelmente, ele se refere a tudo aquilo que nos afasta de Deus. É tudo que se opõe ao projeto de Jesus e à construção de Reino do Pai, que é marcado pela paz, pela justiça, pela misericórdia, pela partilha, pelo perdão.

Por fim, contrasta o conhecimento da verdade doado por Deus, que é Jesus, com os ídolos. O Filho de Deus veio e nos deu a conhecer o Verdadeiro e a Vida Eterna. A cada um de nós é dada inteligência para conhecermos o Verdadeiro (1Jo 5,20), que é o próprio Deus revelado em Jesus. Que o Espírito Santo nos ilumine para que saibamos seguir essa verdade que nos conduz à Vida.

Por isso, é preciso que cada um esteja alerta: “guardai-vos dos ídolos” (1Jo 5,21) porque o Maligno está nos ídolos. Que inspirados pelo Santo Espírito, sejamos capazes de discernir entre o mal e o bem, entre a iniquidade e a justiça, entre a escravidão e a liberdade, entre a morte e a constante caminhada rumo à Vida Eterna. Que ouçamos o chamado divino a sermos santos e santas!

Pausa para refletir:

  1. Jesus é o Caminho que conduz à Vida Eterna. Leia Mt 4,1-11 e reflita sobre a frase apresentada no início dessa questão.
  2. Em sua exortação apostólica “Gaudete et exsultate” sobre o chamado à santidade no mundo atual, Papa Francisco escreve: “A corrupção espiritual é pior que a queda de um pecador, porque se trata de uma cegueira cômoda e autossuficiente, em que tudo acaba por parecer lícito: o engano, a calúnia, o egoísmo e muitas formas sutis de autorreferenciabilidade, já que “também Satanás se disfarça em luz””(nº 165). Reflita sobre esta afirmação a partir de 1Jo 5,13-20.
  3. Considerando a afirmação “Guardai-vos dos ídolos”(1Jo 5,21), aponte alguns ídolos com os quais você convive em seu dia a dia. De que forma eles procuram desviar você do caminho para a Vida Eterna?