Outubro de 2018

Enquanto a Idolatria escraviza, a Sabedoria liberta – Sb 14,22-31

Ao longo deste ano, nossas Dicas Bíblicas veem folheando as páginas do livro da Sabedoria. Temos deixado que o Espírito guie nosso olhar em alguns de seus textos, onde tocam mais detidamente nosso coração, e falam à nossa alma.

Inicialmente nos deparamos com a Sabedoria pronta a nos conduzir em nosso destino, se assim o desejarmos (Sb 1,1-6,21). Dando continuidade, contemplamo-la se manifestando como revelação de Deus em Sb 6,22-9,18.  Agora nos permitiremos compreendê-la, em uma de suas faces, como aquela que é capaz de levar cada ser humano da escravidão à liberdade, aprofundando Sb 10,1–19,22.

Neste texto, nosso autor, como um sábio israelita que é, faz uma releitura do Êxodo, quando a ação de Deus se manifestou em favor dos hebreus e contra os egípcios. Dessa forma chama seus irmãos israelitas a viverem esta ação libertadora que salvou o seu povo da opressão do inimigo, agora guiados pela Sabedoria que continua esta ação do Senhor na história.

Este momento vivido por eles faz viva a memória de sua história! Por isso o autor dá o seu grito de alerta à sua comunidade (cf. Sb 14,11-21), quando imperadores romanos se faziam cultuar como deuses. Esses imperadores, corrompendo as relações humanas e propagando a corrupção, praticavam todo tipo de injustiça e perversidade, compactuando com a morte, e dizendo que nisso consistia a “pax romana”. Sob o domínio do Império Romano, nada mais natural do que reconhecer nos seus dominadores o grande inimigo. Mas nosso autor olha mais além. Vê um inimigo maior, um inimigo astuto que se contrapõe à Sabedoria, um inimigo chamado idolatria.

A idolatria perpassa toda a Bíblia e é denunciada pelos profetas, pois ao adorar outros ídolos o povo se afastava da prática da justiça e da verdade, se afastava da fidelidade a Aliança realizada com o Deus Vivo e Verdadeiro.  Agora no livro da Sabedoria, uma vez mais vemos a idolatria que, persuasiva, em nome da paz, se coloca como uma ameaça à fidelidade a Deus.

O nosso autor denuncia a idolatria e a tentação do povo a se afastar do Deus de Israel em Sb 14,22-31. Neste texto, o redator reflete sobre as consequências do culto aos ídolos, sendo a principal a escravidão humana. Vejamos, pois, os desdobramentos morais que a idolatria provoca.

Ao se deixar seduzir pelos cultos idolátricos, diante da falsa impressão de estar se aliando a uma paz duradoura, o ser humano está admitindo o desconhecimento do verdadeiro Deus, da prática da justiça (Sb 14,22). O culto aos ídolos é princípio e causa de todo mal (Sb 14,12). Ao adorar uma criatura em lugar de Deus perde-se o senso moral, suprime-se toda referência da vida a uma ordem transcendente.

Sem esta referência nos deparamos diante de um mundo desnorteado que põe sua confiança e esperança em deuses manufaturados. Seres mortos, ilusionariamente vivos, que habitam a imaginação de quem os venera e a eles está alienado (Sb 14,29). Desprovidos do senso moral e ético, praticam com naturalidade vícios morais que destroem o ser humano, fazem desmoronar uma sociedade. Vícios tais como o roubo, a fraude, a corrupção, a deslealdade, a perseguição aos bons e a impureza de todo o ser (Sb 14,25-26). Vícios que tão de perto temos testemunhado!… Sem limites, aquele que errou no reconhecimento ao divino, com maior facilidade está vulnerável aos erros éticos, profetizando a mentira e vivendo a injustiça (Sb 28). Assim como os falsos deuses são condenados à morte por favorecerem à injustiça (Sl 82), também estão fadados à morte pelo desprezo à justiça, à verdade e à santidade de Deus (Sb 14, 30-31).

O tempo passa, transformações geográficas, políticas, socioeconômicas, religiosas ocorrem, mas a natureza humana insiste em “flertar”, em se deixar encantar pela idolatria. Sedutora e falaciosa, a idolatria é um convite à escravidão. Por isso, é preciso estar vigilante. É preciso colocar-se no êxodo. É preciso se deixar guiar pela Sabedoria.

Pausa para refletir

  1. A idolatria baseia-se em colocar no lugar de Deus, quem ou algo que não é deus, como pessoas, nós mesmos, objetos, atitudes. Quais são os ídolos que cultuamos em nossos dias, em nossa sociedade, em nossa vida comunitária?
  2. “A infidelidade provém de projetar ídolos, e sua invenção trouxe a corrupção da vida” (Sb 14,12). Reflita e comente esta citação tendo como referência a idolatria.
  3. Quais atitudes somos chamados/as a cultivar para sermos sábios/as e seguidores da sabedoria e não cairmos na idolatria?